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Hack do Coldcard Mk3: US$ 38 Milhões em Bitcoin Roubados em 25 Minutos

Por Alexsander

Segurança Digital & Criptoativos

Uma única linha de código malformada no firmware, silenciosa desde 2021, foi suficiente para esvaziar centenas de carteiras que seguiam todas as boas práticas de segurança. O caso levanta uma pergunta que todo investidor precisa responder.

31 de Julho de 2026
JG
Jonatas Girade
Jonatas Girade
Co-editor · Kaza Capital

Resumo do Incidente
US$ 38,3 mi
Valor Roubado
594 BTC
Total Drenado
~500
Carteiras Afetadas
25 min
Duração do Ataque
Fontes: Coinkite, Block, CoinDesk. Ataque registrado entre 01h31 e 01h56 UTC (30/07/2026).

Na madrugada de sexta-feira, 30 de julho de 2026, um invasor ainda não identificado executou um dos ataques mais cirúrgicos da história dos criptoativos. Não houve phishing, não houve engenharia social, não houve invasão física. O ataque explorou uma falha de firmware que existia há mais de cinco anos, invisível até para a própria fabricante, e que transformou a premissa de segurança do dispositivo em uma ilusão matematicamente quebrável.

A Linha do Tempo de um Ataque Cinco Anos em Gestação

Este não foi um ataque de oportunidade. Foi a exploração metódica de uma vulnerabilidade que dormia no código aberto do dispositivo desde 2021, provavelmente localizada por um pesquisador, um grupo organizado, ou com auxílio de ferramentas modernas de análise de código. A Coinkite, fabricante do Coldcard, afirma desconhecer o bug até o momento em que o ataque se materializou.

Março de 2021

A falha é introduzida, sem que ninguém perceba

Durante a reformulação da base de código do firmware versão 4.0.0, uma verificação malformada faz com que o dispositivo passe a ignorar o gerador de números aleatórios por hardware (TRNG) e gere sementes criptográficas com base em fontes de dados previsíveis do próprio chip.

2021–2026 · Cinco anos de silêncio

O código está público. Ninguém encontra o bug.

O firmware do Coldcard é open-source, qualquer pessoa pode auditar. Mesmo assim, a falha permanece invisível: nem a fabricante, nem a comunidade a identificam. Cerca de 500 usuários configuram suas carteiras nesse período.

30 de julho de 2026 · 01h31 UTC

O ataque começa e termina

Em 25 minutos, 594 BTC são drenados. O critério de seleção era claro: apenas endereços com saldo acima de 0,15 BTC, gerados com firmware vulnerável. Ao final, 562 dos 594 BTC são consolidados em um único endereço de destino.

30–31 de julho de 2026

Coinkite publica advisory oficial

A fabricante reconhece a vulnerabilidade, confirma desconhecer o bug até o ataque, e emite orientação: atualizar o firmware e migrar os fundos para uma seed gerada do zero. Apenas a atualização não protege sementes já comprometidas.

Uma Linha de Código. Cinco Anos. US$ 38 Milhões.

Segundo análise da equipe de engenharia da Block, empresa de Jack Dorsey especializada em infraestrutura de Bitcoin, o problema não foi uma invasão externa. Foi um defeito de programação que alterou silenciosamente o comportamento do dispositivo na hora mais crítica: a geração das sementes criptográficas.

O Coldcard possui um gerador de números aleatórios por hardware (TRNG), um componente físico que produz aleatoriedade real, baseada em ruído eletrônico, para gerar chaves privadas genuinamente imprevisíveis. O firmware tinha uma macro de habilitação para esse componente: MICROPY_HW_ENABLE_RNG. O problema é que o código verificava apenas se a macro estava definida, não qual era o seu valor. E a Coinkite havia atribuído a essa macro o valor zero.

O Defeito, Representação Simplificada
// O código verificava apenas se a macro existia, não seu valor
#ifdef MICROPY_HW_ENABLE_RNG // ← sempre verdadeiro, mesmo se = 0
use_hardware_rng(); // ← função nunca executada
#endif
// O que deveria ser:
#if MICROPY_HW_ENABLE_RNG // ← verifica o valor (1 ou 0)
use_hardware_rng(); // ← executado apenas se = 1
#endif

¹ Representação didática simplificada da lógica da falha. Código real disponível no repositório público da Coinkite.

Com o TRNG silenciosamente ignorado, o dispositivo passou a gerar sementes a partir de dados não secretos e parcialmente previsíveis do próprio chip, reduzindo drasticamente a entropia da chave privada. Entropia é a medida de imprevisibilidade matemática que protege uma chave criptográfica de ser reconstituída por força bruta. Com entropia insuficiente, um invasor que conhece o método consegue reconstruir a chave privada das carteiras afetadas com poder computacional acessível.

Quais Dispositivos São Afetados, e o Que Fazer Agora

Confirmado Vulnerável

Coldcard Mk3

Seeds geradas com firmware entre as versões 4.0.1 e 5.0.3. Se você configurou sua carteira nesse período, trate a seed atual como potencialmente comprometida. Migre os fundos imediatamente.

Risco Parcial

Coldcard Mk2, Mk4, Q e Mk5

Mk2 (firmware 4.x) tem vulnerabilidade menor. Mk4, Q e Mk5 usam elemento seguro dedicado, mas retêm apenas 4 bytes de entropia, a Coinkite classifica como “risco não confirmado”.

Não Afetado

Firmwares Antigos & Outros

Firmwares anteriores a 4.0.0, além de Tapsigner, Opendime e Satscard, que utilizam base de código distinta, não apresentam a vulnerabilidade.

Procedimento Imediato, Coldcard Mk2 e Mk3

A execução dos três passos abaixo deve ser feita na ordem exata para garantir a segurança:

  • 1. Atualize o firmware do dispositivo para a versão mais recente e corrigida.
  • 2. Gere uma seed inteiramente nova (só é segura se criada com o firmware já corrigido).
  • 3. Transfira a totalidade dos fundos para a nova carteira gerada.

Atenção: Atualizar o firmware sem gerar uma nova seed e migrar os fundos não é suficiente. A chave antiga pode já ter sido reconstruída.

Cold Wallet, Hot Wallet ou Corretora: Três Riscos Diferentes, Nenhum é Zero

O caso Coldcard não prova que hardware wallets são ruins. Prova algo mais sutil e mais importante: que a autocustódia transfere para o investidor a responsabilidade integral por uma cadeia de elos técnicos que a maioria das pessoas não tem condições de auditar. E que qualquer elo dessa cadeia, hardware, firmware, geração de entropia, pode ser o ponto de falha.

Critério Cold Wallet (Offline) Hot Wallet (App) Corretora Regulada
Controle da chave Investidor (offline) Investidor (conectado) A plataforma
Principal risco Falha técnica invisível ⚠️ Malware / phishing ⚠️ Falência / Hack da plataforma ⚠️
Recurso se perder Nenhum (definitivo) Nenhum (definitivo) Possível via suporte/seguro
Auditável pelo usuário? Não (exige nível técnico) Parcialmente Sim (via CVM / Auditorias) ✅
Indicado para Long prazo, perfil técnico Uso ativo, valores médios Operação diária, perfil comum

A classificação de risco é relativa. Nenhuma opção elimina risco, cada uma o distribui de forma diferente.

Não é “Cold Wallet ou Corretora” é “Você Consegue Auditar o Risco Sozinho?”

O debate sobre custódia em cripto costuma ser apresentado como uma guerra ideológica: autocustódia é liberdade, corretora é dependência. O caso Coldcard força uma reflexão mais honesta.

Um investidor sem formação técnica em criptografia não tem como verificar se o hardware wallet que comprou gera chaves privadas verdadeiramente aleatórias. A confiança é cega, e o preço da falha é uma perda sem apelação. Uma corretora regulada não resolve esse problema por ser perfeita, mas porque troca um risco invisível e inauditável pelo investidor por um risco monitorado por terceiros, auditorias independentes, compliance regulatório e supervisão institucional. Para a maioria dos investidores, esse trade-off reduz o risco agregado.

O Coldcard Mk3 seguia a premissa da autocustódia com rigor. As 500 pessoas que perderam seus fundos fizeram tudo certo. O problema não estava no comportamento do usuário. Estava em uma linha de código que ninguém viu durante cinco anos.

A lição não é abandonar a autocustódia, é ser honesto sobre o que ela realmente exige. E se você não domina criptografia, firmware e análise de entropia, talvez a pergunta mais inteligente não seja “qual dispositivo comprar”, mas “quem eu quero que monitore esse risco por mim”.

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AVISO EDUCACIONAL E REGULATÓRIO: Este material possui natureza estritamente informacional, técnica e retrospectiva. Não constitui recomendação individualizada de investimento nem indicação de custódia, produto ou plataforma específica. Criptoativos envolvem riscos severos de perda de capital. A Kaza Capital não comercializa nem recomenda hardware wallets específicas, as marcas citadas têm finalidade exclusivamente ilustrativa e analítica baseada em reportagens públicas (Block, CoinDesk).

Fonte: Coinkite / Block / CoinDesk | Editorial Kaza Capital | Julho 2026

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