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Crise no Oriente Médio pressiona fertilizantes e coloca safra brasileira de soja em alerta

Por Thaís Marinho
Geopolítica • Internacional
Abril 2026

A escalada do conflito no Oriente Médio está repercutindo diretamente no custo de produção agrícola no Brasil: com fertilizantes acima de 50% em relação às médias históricas e 85% dos insumos dependendo de importação, produtores de soja precisam tomar decisões críticas em um momento de alta incerteza.

O que acontece nos campos de batalha do Oriente Médio tem chegado, com velocidade crescente, às fazendas brasileiras. Um estudo da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, aponta que a instabilidade gerada pelos ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, no fim de fevereiro, colocou o mercado global de insumos agrícolas em estado de alerta — e o Brasil está entre os países mais expostos a esse movimento.

O epicentro logístico da crise é o Estreito de Ormuz, rota estratégica que escoa cerca de um terço de todos os fertilizantes transportados por via marítima no mundo. Qualquer interrupção nesse corredor se traduz, quase imediatamente, em alta de preços e risco de desabastecimento nos mercados dependentes de importação — situação que se encaixa com precisão no perfil do agronegócio brasileiro.

Cenários geopolíticos afetam portfólios. Entender os impactos é parte do planejamento patrimonial.

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Dependência estrutural amplifica o risco brasileiro

O Brasil importa 85% dos fertilizantes que consome — e essa dependência se distribui por diferentes nutrientes e origens. O nitrogênio chega principalmente na forma de ureia, com Rússia e China como fornecedores centrais. O fosfato depende de Marrocos e Rússia. Já o potássio é abastecido por Canadá, Rússia e Bielorrússia. Essa diversificação geográfica, porém, não protege o país de choques simultâneos em rotas de transporte críticas como Ormuz.

O Irã, especificamente, figura entre os maiores exportadores globais de ureia — insumo amplamente utilizado no cultivo do milho. A combinação entre tensão diplomática, risco de fechamento de rotas e alta de preços do petróleo — que pressiona os custos de logística em um país que depende majoritariamente do transporte rodoviário — cria o que o levantamento descreve como uma “pressão dupla”: custos mais elevados e menor previsibilidade de abastecimento.

Segundo o estudo de Purdue, os preços dos fertilizantes já acumulam alta superior a 50% em relação às médias históricas. A relação de troca entre grãos e insumos também se deteriorou, com o fosfato próximo do pior patamar dos últimos cinco anos — o que significa que o agricultor precisa vender mais soja para comprar a mesma quantidade de adubo.

Janela crítica coincide com a escalada do conflito

O problema tem um agravante de calendário. No Brasil, a compra de fertilizantes para a safra seguinte ocorre tipicamente entre fevereiro e maio — exatamente o período em que o conflito se intensificou. “As decisões usuais sobre fertilizantes para soja estão sendo tomadas neste momento”, aponta o estudo.

O reflexo disso aparece nos números de compra: apenas cerca de 30% do volume estimado de insumos havia sido adquirido até o momento da pesquisa, abaixo da média histórica para o mesmo período. O produtor se vê diante de um dilema claro — pagar mais caro agora ou assumir o risco de enfrentar escassez mais à frente, com o plantio da soja previsto para meados de setembro e o início da safra 2026/27 marcado para 1º de julho.

Mudanças nos custos do agronegócio impactam diferentes classes de ativos. Acompanhar esse movimento faz parte de uma gestão patrimonial bem fundamentada.

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Exportações recordes contrastam com incerteza à frente

O cenário atual contrasta com o desempenho recente do setor. Dados da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) mostram que o Brasil encerrou 2025 com exportações recordes de soja, totalizando 108 milhões de toneladas — alta de 11,7% em relação às 97 milhões de toneladas embarcadas em 2024. A China manteve a posição de principal destino, absorvendo 87,1 milhões de toneladas, ou 80% do total exportado.

Para 2026, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projeta que o Brasil deverá renovar o recorde, com embarques estimados em 114 milhões de toneladas. A Anec, contudo, estima que os envios ao mercado chinês devem recuar para cerca de 77 milhões de toneladas neste ano. Esse horizonte positivo, porém, convive com a incerteza dos custos de produção — e é justamente aí que o conflito no Oriente Médio pode deixar sua marca mais duradoura.

Para o milho, o impacto imediato é menor, já que a safra atual foi plantada antes da escalada das tensões. Ainda assim, os preços de ureia e fosfato também se aproximam de máximas históricas, o que tende a influenciar as decisões de insumos para 2027. A diferença em relação aos Estados Unidos é estrutural: a produção doméstica americana de nitrogênio e fosfato reduz significativamente a exposição de seus produtores a choques externos — margem que o Brasil não dispõe na mesma proporção.

Cenários complexos pedem estratégia clara.

A Kaza Capital acompanha os movimentos do mercado para ajudar você a tomar decisões mais bem fundamentadas.

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Fonte: Exame (César H. S. Rezende); Universidade de Purdue; Anec; USDA.

Este conteúdo tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.

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