A cada 45 dias após o fechamento de um trimestre, a SEC (a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos) obriga gestores com mais de US$ 100 milhões em ativos a revelar o que compraram e venderam. É o chamado Formulário 13F, e a rodada divulgada em agosto de 2026, referente ao segundo trimestre do ano, trouxe um dado que raramente aparece: os grandes nomes do mercado global voltaram a comprar ações com convicção, depois de um longo período de cautela.
O protagonista, mais uma vez, foi Warren Buffett. Mas olhar apenas para a Berkshire Hathaway conta só parte da história. Enquanto o “Oráculo de Omaha” apostou pesado em um único nome, outros gestores bilionários, de Bill Ackman a Ray Dalio, passando pelo cético Michael Burry, desenharam movimentos bem diferentes entre abril e junho. A leitura conjunta desses sinais é o que realmente interessa para quem acompanha ciclos de mercado.
Alphabet · Delta · Lennar
O dado chama atenção porque rompe um padrão de mais de três anos. Desde que Buffett passou a sinalizar dificuldade para encontrar preços atrativos na bolsa americana, a Berkshire vinha reduzindo posições trimestre após trimestre e acumulando caixa, que hoje soma cerca de US$ 365 bilhões. A reversão no 2º trimestre de 2026 não significa que essa cautela acabou, mas indica que, mesmo em uma gestão dividida entre Buffett (agora presidente do conselho) e o CEO Greg Abel, ainda existem oportunidades específicas consideradas atrativas o bastante para justificar cheques bilionários.
US$ 299 bi
valor total em ações no 2T26
US$ 36,6 bi
3ª maior posição da carteira
US$ 19,5 bi
carteira de Bill Ackman, +4 posições no tri
A aposta que Buffett assumiu para si
Do total investido em ações pela Berkshire no trimestre, cerca de 74% foi destinado a uma única empresa: a Alphabet, dona do Google. A companhia encerrou junho com aproximadamente 106 milhões de ações somando as duas classes negociadas, um salto de 83% na posição em relação ao trimestre anterior. Parte relevante da compra, cerca de US$ 10 bilhões, veio diretamente da Alphabet, em uma colocação privada de ações anunciada em junho para financiar os investimentos da empresa em inteligência artificial. O restante foi adquirido no mercado aberto.
O que torna esse movimento particular é a origem da decisão. Diferentemente da praxe da Berkshire, que normalmente não detalha qual gestor iniciou cada posição, Buffett confirmou publicamente, em entrevista à CNBC, que a compra partiu dele, e não de Abel ou de Ted Weschler, os outros dois responsáveis pela carteira de ações. Aos 95 anos e já fora do cargo de CEO desde o início de 2026, o investidor deixou claro que a decisão contou com o aval do sucessor, reforçando que a transição de comando não significou seu afastamento das apostas de maior convicção.
“Não estou fazendo nada que ele não aprove. Ele não está fazendo nada de que eu não aprove.”
Warren Buffett, sobre sua relação com Greg Abel, em entrevista à CNBC
Vale um ponto de atenção: por enquanto, a conta direta com a Alphabet está no vermelho, já que a Berkshire pagou cerca de US$ 350 por ação na colocação privada, acima da cotação atual do papel. Isso não invalida a tese de longo prazo (Buffett já demonstrava interesse pela empresa havia quase uma década), mas serve como lembrete de que até os investidores mais renomados do mundo compram posições que, no curto prazo, ficam no negativo.
Além de Buffett: como outros gestores bilionários se posicionaram
Um erro comum é tratar o 13F da Berkshire como sinônimo do “sentimento do mercado”. Na prática, os grandes gestores institucionais divergem entre si, e é justamente nessa divergência que está a informação mais rica para quem estuda ciclos econômicos.
- Bill Ackman (Pershing Square): a carteira saltou para cerca de US$ 19,5 bilhões no trimestre, com expansão de 10 para 14 posições, um movimento de diversificação após períodos de carteira mais concentrada.
- Ray Dalio (Bridgewater Associates): os ativos sob gestão avançaram cerca de 8,8% no trimestre, para aproximadamente US$ 24,4 bilhões, com reforço em posições atreladas a índices amplos do mercado americano e novas alocações no setor de utilities, historicamente associado a estratégias mais defensivas.
- Michael Burry (Scion Asset Management): na contramão do otimismo, o investidor que ficou conhecido por prever a crise imobiliária de 2008 ampliou apostas contrárias a empresas ligadas à infraestrutura de inteligência artificial, citando o descompasso entre os compromissos bilionários de capital assumidos por essas companhias e a geração de caixa ainda incipiente do setor.
O contraste é didático: enquanto Buffett concentra uma aposta expressiva em uma gigante de tecnologia já consolidada, Burry sinaliza desconfiança específica com a camada de infraestrutura que sustenta o boom de IA, não com a tecnologia em si. São leituras diferentes de um mesmo ciclo, e nenhuma delas, isoladamente, deveria ser tomada como verdade absoluta.
Movimentos de 13F são fotografias do passado: o próprio formulário reflete posições de até 45 dias atrás, e a divulgação pode levar até 135 dias em alguns casos. Mais do que copiar a posição de um gestor específico, o valor está em entender a lógica por trás de cada decisão e como ela se conecta (ou não) com o cenário econômico e o horizonte de planejamento de cada investidor.
O que os números da Berkshire também revelam
Para além da Alphabet, o trimestre trouxe outros sinais relevantes sobre a leitura de Abel para a economia americana. A Berkshire aumentou posições em Delta Air Lines, Lennar e The New York Times, além de iniciar uma nova posição em D.R. Horton, mais um nome do setor de construção civil que já vinha ganhando espaço na carteira. Do lado das vendas, houve redução em Bank of America, DaVita, Kroger, Ally Financial e Capital One, além da saída completa da posição em Constellation Brands.
| Movimento | Detalhe |
|---|---|
| Aquisição Taylor Morrison | Compra da construtora concluída em julho de 2026, com valor de empresa de aproximadamente US$ 8,5 bilhões |
| Recompra de ações | Mais de US$ 4,5 bilhões recomprados pela própria Berkshire no trimestre |
| Lucro operacional | US$ 12,98 bilhões no 2T26, ante US$ 11,16 bilhões no mesmo período de 2025 |
| Desempenho da ação | BRK sobe cerca de 3% no ano, abaixo dos aproximadamente 13% do S&P 500 no mesmo período |
O dado do desempenho da ação em relação ao índice S&P 500 é, talvez, o mais revelador de todos. Mesmo com a volta às compras, a Berkshire ainda navega um período de underperformance frente ao mercado amplo, o que ajuda a explicar a pressão de parte dos acionistas para que Abel utilize o caixa disponível de forma mais ativa daqui para frente.
Para quem acompanha o setor do agro e outras frentes produtivas no Brasil, vale um paralelo: assim como a Berkshire optou por reforçar setores considerados estruturais (habitação, transporte, tecnologia) antes de acelerar o ritmo de investimentos, decisões patrimoniais sólidas raramente nascem de reações a um único trimestre. Nascem de teses construídas com tempo, dados e critério, adaptadas à realidade e aos objetivos de cada investidor.
Os próximos 13F, que devem ser divulgados a partir de meados de novembro, deverão mostrar se a virada de convicção deste trimestre foi pontual ou se marca o início de um novo ciclo de alocação por parte dos maiores gestores do mundo. Até lá, o exercício mais útil não é tentar prever a próxima jogada de Buffett, e sim entender os princípios que sustentam decisões de investimento consistentes ao longo do tempo.
Grandes movimentos exigem planejamento, não impulso
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Fontes: Formulário 13F da Berkshire Hathaway, SEC (agosto de 2026); CNBC, “Berkshire adds $17 billion to Alphabet stake” e “Berkshire Hathaway earnings Q2 2026”; Forbes, “Berkshire Hathaway Turns Buyer As Buffett Backs Alphabet”; Seeking Alpha, coberturas dos 13F de Berkshire Hathaway e Pershing Square (2T26); Blockchain.News, “Bridgewater: Dalio Files Q2 2026 13F Holdings”; comunicados oficiais de Berkshire Hathaway e Taylor Morrison sobre a aquisição concluída em julho de 2026; reportagens sobre as posições públicas de Michael Burry (Scion Asset Management), agosto de 2026.
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