Agosto 2026
Documento entregue à Justiça de São Paulo detalha, pela primeira vez, quem está do outro lado dos R$ 17,3 bilhões em dívidas que a Casas Bahia tenta reestruturar em sua recuperação judicial.
A Casas Bahia (BHIA3) protocolou nesta segunda-feira, 17, a relação de credores vinculada ao pedido de recuperação judicial apresentado à Justiça paulista. O documento revela a composição do passivo sujeito ao processo, reunindo seguradoras, bancos, fundos de investimento, fabricantes de eletroeletrônicos e o fisco.
O pedido foi protocolado poucos dias depois de a varejista reportar um prejuízo líquido de R$ 10,117 bilhões no segundo trimestre do ano. Na petição, a companhia descreveu o momento atual como o mais crítico de sua trajetória financeira.
Movimentos de mercado exigem acompanhamento contínuo.
Seguradora e fundo de recebíveis abrem a lista de maiores credores
No topo da relação individual de credores está a Zurich Minas Brasil Seguros, com R$ 1,977 bilhão a receber. A seguradora atua como parceira do grupo na oferta de produtos como garantia estendida e proteção contra furto, roubo e quebra de eletrônicos vendidos nas lojas.
Logo atrás aparece o IBCB-AF01, fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC) que responde por R$ 1,085 bilhão — o equivalente a cerca de 6,2% de todo o passivo sujeito ao plano de recuperação. O fundo opera principalmente com antecipação de recebíveis a fornecedores e aquisição de notas comerciais emitidas pela varejista.
Fabricantes de eletroeletrônicos concentram parcela expressiva da dívida
A lista de credores evidencia forte exposição das indústrias que abastecem as lojas da Casas Bahia. A Samsung Eletrônica da Amazônia, fábrica instalada em Manaus, aparece com R$ 937,6 milhões. Na sequência estão Whirlpool (R$ 800,9 milhões), Electrolux (R$ 700,1 milhões), TCL Semp (R$ 633,4 milhões), LG Electronics (R$ 623,7 milhões) e Motorola Mobility (R$ 619 milhões).
Completam esse grupo a Britânia, com R$ 354,8 milhões, a Envision, com R$ 296,3 milhões, o Grupo Multilaser, com R$ 206,7 milhões, a Apple Computer Brasil, com R$ 183 milhões, e a Lenovo Tecnologia, com R$ 137,2 milhões.
Entender o cenário é o primeiro passo para decisões mais seguras.
Bancos, fisco e fornecedores completam o retrato do passivo
Entre as instituições financeiras, o Bradesco concentra a maior exposição: somando os créditos registrados em seu próprio nome e os atribuídos ao Banco Digio, controlado pela instituição, o total chega a R$ 4,78 bilhões. O Banco do Brasil aparece com R$ 598,1 milhões, seguido por Oliveira Trust DTVM (R$ 345,9 milhões), Redasset Gestão de Recursos (cerca de R$ 337 milhões), CBSB FIDC (R$ 233,9 milhões) e Itaú Unibanco (R$ 208,3 milhões).
Por categoria, os fornecedores respondem pela maior fatia do passivo circulante da companhia, com R$ 8,987 bilhões conforme balanço de 30 de junho. Na petição, a Casas Bahia pediu à Justiça que fornecedores mantenham a entrega de mercadorias já compradas e em trânsito, argumentando que uma interrupção no abastecimento comprometeria diretamente a geração de caixa e a capacidade de honrar compromissos.
O endividamento bancário soma R$ 7,034 bilhões, aos quais se somam R$ 2,016 bilhões em obrigações ligadas a cotas seniores de FIDCs. A companhia informou ainda que contratos financeiros e comerciais que ultrapassam R$ 10 bilhões contêm cláusulas que poderiam antecipar o vencimento das dívidas diante do pedido de recuperação judicial — um dos motivos apontados para a urgência da proteção judicial.
O poder público também figura entre os credores relevantes: as obrigações tributárias somam R$ 2,582 bilhões, dos quais R$ 1,05 bilhão referem-se a ICMS e R$ 880,2 milhões a parcelamentos estaduais. No campo trabalhista, a empresa mantém R$ 1,403 bilhão provisionado para ações de perda provável e cita ainda R$ 2,696 bilhões em processos de perda possível, não provisionados. Entre os credores por aluguel, a Icon Properties detém contratos referentes a 158 imóveis operacionais do grupo, com passivo de arrendamento de aproximadamente R$ 406 milhões.
Próximos passos do processo judicial
O pedido de recuperação judicial ainda está sujeito à análise da Justiça de São Paulo. Caso seja deferido, a Casas Bahia terá de apresentar um plano formal de reestruturação aos credores dentro dos prazos previstos em lei, abrindo caminho para negociações com bancos, fundos, fornecedores e demais partes envolvidas.
Segundo a companhia, o objetivo do processo é preservar a continuidade operacional e criar condições para uma retomada sustentável do negócio, sem interrupções no atendimento aos consumidores nas lojas físicas e nos canais digitais.
Cenários complexos pedem estratégia clara.
Casos como este reforçam a importância de acompanhar o mercado de perto e planejar decisões com visão de longo prazo.
Fonte: Exame.
Este conteúdo tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.