Abril 2026
Presidente da Abimaq aponta riscos de perda de competitividade com eventual corte na carga horária e defende que o Brasil migre para um modelo de remuneração por hora.
A proposta de acabar com a escala 6×1 ganhou fôlego no Congresso depois que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou, na noite de quarta-feira (22), o parecer favorável à tramitação da PEC que altera as regras de jornada. O texto agora segue para uma comissão especial, onde serão definidos detalhes como a nova carga horária e possíveis compensações, antes de ir a plenário.
O avanço legislativo, porém, acendeu sinais de alerta na indústria. José Veloso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas (Abimaq), afirmou que a mudança tende a pressionar custos, corroer a competitividade e, em última análise, provocar cortes de postos de trabalho. As declarações foram feitas à Exame durante a feira Hannover Messe, na Alemanha.
Mudanças regulatórias no mercado de trabalho impactam diretamente o ambiente de negócios e os investimentos.
O argumento da produtividade e do custo
Veloso reconhece que a reivindicação dos trabalhadores por mais tempo livre é legítima, especialmente para quem enfrenta longas horas de deslocamento e salários baixos. Ainda assim, o dirigente sustenta que reduzir a jornada sem ganhos reais de eficiência tornará os produtos nacionais mais caros e comprimirá a renda dos próprios trabalhadores.
“Vai aumentar custo, vai diminuir produtividade, e com isso diminui a nossa competitividade e vai precarizar emprego”, afirmou. Segundo ele, a vedação legal à redução salarial não impede que as empresas recorram à rotatividade de pessoal para ajustar a folha. “Alguém perguntou para a pessoa de baixa renda se ele topa pagar mais caro e ganhar menos?”, questionou.
Automação distante da média global
O presidente da Abimaq também trouxe dados de automação industrial para reforçar sua tese. O Brasil opera hoje com cerca de 10 robôs para cada 10 mil trabalhadores industriais, enquanto a média mundial é de 169. A título de comparação, Alemanha e Estados Unidos registram 470, a China alcança 430 e a Coreia do Sul lidera com 1.050 unidades por 10 mil profissionais.
Na avaliação de Veloso, a baixa densidade de automação limita os ganhos de produtividade que poderiam compensar uma jornada mais curta — o que torna o debate sobre horas trabalhadas inseparável do investimento em tecnologia fabril.
Entender o cenário é o primeiro passo para decisões mais seguras.
Paralelo com o trabalho doméstico
Veloso traçou um paralelo com a formalização do emprego doméstico, ampliada na década passada com a obrigatoriedade do eSocial. Embora favorável ao registro em carteira, o dirigente argumenta que a elevação dos encargos levou muitos empregadores a substituir a empregada registrada por diaristas sem vínculo formal. “Antes tinha registro”, resumiu, sugerindo que excesso de custo pode gerar o efeito oposto ao pretendido pela legislação.
Proposta de remuneração por hora
Como alternativa, o presidente da Abimaq defende que o Brasil adote a possibilidade de contratos com pagamento por hora, em substituição ao modelo exclusivamente mensal da CLT. Segundo ele, países europeus já oferecem essa flexibilidade, e os Estados Unidos operam com base semanal.
Na prática, a mudança permitiria que estabelecimentos com horários variáveis — como farmácias em shoppings que funcionam apenas parte do dia nos fins de semana — contratassem profissionais para turnos reduzidos, com remuneração proporcional e negociação direta entre as partes.
O setor industrial, vale lembrar, já opera majoritariamente no regime 5×2, com 44 horas semanais. O debate sobre a escala 6×1, portanto, concentra seus efeitos mais visíveis em segmentos como comércio e serviços, onde a jornada de seis dias consecutivos ainda é prática comum.
Cenários complexos pedem estratégia clara.
Mudanças no ambiente regulatório afetam diferentes setores e classes de ativos de formas distintas.
Fonte: Exame.
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