Por trás de cada modelo de IA que responde em segundos existe uma cadeia física de eletricidade, cobre, água e turbinas que poucos investidores param para observar. E é justamente aí que pode estar o próximo capítulo da tese.
Nos últimos anos, a tese de investimento in Inteligência Artificial se concentrou quase inteiramente nas empresas que desenvolvem os modelos e nos fabricantes de chips. Mas há uma camada anterior a tudo isso, menos visível e cada vez mais decisiva: a infraestrutura de energia que sustenta essa revolução. Sem eletricidade abundante, confiável e barata, não existe IA em escala e o mercado está começando a precificar essa realidade.
Por que modelos de IA consomem tanta eletricidade
Treinar e operar modelos de linguagem e de IA generativa exige um volume de processamento matemático muito superior ao de aplicações digitais tradicionais. Cada consulta processada por um modelo de IA percorre milhares de operações em servidores especializados, as chamadas GPUs e aceleradores, que consomem significativamente mais energia por unidade de processamento do que os servidores convencionais que sustentam sites e aplicativos comuns.
Some a isso um factor menos discutido: o avanço de agentes de IA, capazes de executar tarefas complexas de forma autônoma e contínua, tende a multiplicar o volume de processamento por usuário, não apenas o número de usuários. O resultado é uma curva de consumo energético que cresce mais rápido do que a eficiência dos chips consegue compensar.
O crescimento da demanda energética dos data centers
Os números divulgados recentemente pela Agência Internacional de Energia (IEA) dão dimensão concreta a essa transformação.
| Consumo elétrico global de data centers | |
|---|---|
| Crescimento em 2025 | Amanhã elétrica dos data centers cresceu 17% no ano, mais de cinco vezes o ritmo de crescimento da demanda elétrica global (3%) |
| Demanda ligada à IA | O consumo elétrico de data centers voltados especificamente para IA cresceu cerca de 50% em 2025 |
| Projeção para 2030 | O consumo total de data centers deve praticamente dobrar, aproximando-se de 950 TWh, volume comparável ao consumo elétrico total do Japão |
| Demanda específica de IA até 2030 | Projeção de triplicar no mesmo período |
| Investimento em infraestrutura | Capex das cinco maiores empresas de tecnologia superou US$ 400 bilhões em 2025, com expectativa de crescer mais 75% em 2026 |
Fonte: International Energy Agency (IEA) — “Key Questions on Energy and AI”, 2026.
Nos Estados Unidos, maior mercado de data centers do mundo, a projeção da IEA é de que, até o fim da década, o sector consuma mais eletricidade do que toda a indústria pesada do país somada, incluindo produção de alumínio, aço, cimento e químicos. É esse tipo de comparação que evidencia por que a questão energética deixou de ser um detalhe técnico e passou a ser um fator estratégico central da tese de IA.
Geração, transmissão e armazenamento de energia
Diante desse cenário, três elos da cadeia energética ganham protagonismo direto:
- •
Geração: empresas capazes de expandir rapidamente sua capacidade instalada, em fontes renováveis, gás natural ou nuclear, tendem a se posicionar como fornecedoras estratégicas para operadores de data centers.
- •
Transmissão: a energia gerada precisa chegar até os data centers com confiabilidade, o que exige investimento pesado em linhas de transmissão e subestações, um segmento historicamente sub-investido em diversos países.
- •
Armazenamento: como cargas de treinamento de IA geram picos de consumo rápidos e intensos, soluções de baterias e armazenamento de longa duração se tornam componentes cada vez mais relevantes da operação. A própria IEA projeta entre 20 e 25 GW de capacidade de baterias instaladas em data centers até 2030.
Diante da lentidão de conexão à rede elétrica em diversos mercados, uma parte crescente dos operadores de data centers tem optado por gerar energia no próprio local, sobretudo a partir de gás natural, como forma de contornar gargalos regulatórios e de infraestrutura.
A possível retomada da energia nuclear
Um dos desdobramentos mais relevantes dessa tese é o renovado interesse pela energia nuclear como fonte de eletricidade estável, previsível e livre de emissões, características especialmente valiosas para operações que precisam funcionar ininterruptamente.
O sinal mais concreto dessa retomada está nos chamados reatores modulares pequenos (SMRs): o volume de acordos condicionais de fornecimento de energia entre operadores de data centers e projetos de SMR quase dobrou, saindo de 25 GW ao final de 2024 para 45 GW atualmente, segundo a IEA. Empresas de tecnologia já assinaram contratos diretos com desenvolvedores de projetos nucleares para garantir fornecimento futuro de energia limpa e constante.
Isso não significa que a energia nuclear resolverá o problema no curto prazo, projetos desse tipo têm ciclos longos de desenvolvimento, licenciamento e construção. Mas indica uma mudança estrutural de percepção sobre a fonte, depois de décadas de estagnação do setor em boa parte do mundo ocidental.
Cobre, urânio, gás natural e equipamentos elétricos
A expansão da infraestrutura de energia para IA não se limita às geradoras. Ela cria uma cadeia de demanda por insumos e equipamentos que vai muito além do setor elétrico tradicional:
- •
Cobre: matéria-prima essencial em cabos, transformadores e infraestrutura de transmissão; a expansão simultânea de data centers, eletrificação e energias renováveis pressiona a demanda global do metal.
- •
Urânio: combustível-base da energia nuclear, tende a se beneficiar diretamente do movimento de retomada de projetos nucleares e SMRs.
- •
Gás natural: fonte de transição relevante, especialmente para geração local (on-site) junto a data centers em regiões com gargalos de rede.
- •
Equipamentos elétricos pesados: transformadores, turbinas e geradores enfrentam filas de produção que já se estendem por anos em alguns fabricantes globais, evidenciando um gargalo real de capacidade industrial.
Sistemas de refrigeração e gestão de água
Outro elo pouco discutido da cadeia é o de refrigeração. Servidores de IA de alta densidade geram grandes volumes de calor, e mantê-los em temperatura operacional segura é tão crítico quanto fornecer eletricidade.
- •
Refrigeração líquida: tecnologia que vem substituindo os sistemas tradicionais a ar em data centers de alta performance, com maior eficiência energética.
- •
Gestão hídrica: data centers de grande porte podem consumir volumes significativos de água para resfriamento, o que já gera tensões em regiões com estresse hídrico, um fator ambiental e regulatório que tende a ganhar peso na avaliação de novos projetos.
O impacto dos gargalos das redes de transmissão
Mesmo com capacidade de geração disponível, um dos maiores obstáculos ao crescimento acelerado do setor está na infraestrutura de transmissão, as redes que levam a eletricidade da usina até o data center. Em diversos mercados, os prazos para conectar novos grandes consumidores à rede elétrica se estendem por anos, criando um descompasso entre a velocidade do investimento em IA e a velocidade de resposta da infraestrutura elétrica.
Esse gargalo é, ao mesmo tempo, um risco para o ritmo de expansão da IA e uma oportunidade de investimento para empresas especializadas em engenharia, equipamentos e serviços de transmissão, um segmento que tende a operar com carteiras de projetos em expansão por vários anos.
Um ponto de atenção importante
Toda tese estrutural bem-sucedida atrai capital, e capital em excesso tende a distorcer preços antes de distorcer fundamentos. Parte relevante do entusiasmo recente do mercado com energia e IA já está refletida nas cotações de diversas empresas do setor, o que exige cautela redobrada na análise de valuation.
Há também um risco de execução real: nem todo projeto anunciado, seja de geração, transmissão ou nuclear, sai do papel no prazo e no orçamento previstos. Atrasos regulatórios, custos de construção acima do esperado e mudanças de prioridade política podem impactar significativamente o retorno de projetos de infraestrutura energética.
Por fim, existe o risco da própria demanda projetada não se confirmar integralmente. Se o ritmo de adoção de IA desacelerar, ou se ganhos de eficiência de hardware superarem as expectativas, o crescimento de consumo elétrico pode ser mais moderado do que o cenário-base hoje precificado pelo mercado.
Formas de se expor à tese sem concentrar patrimônio em tecnologia
Um dos aspectos mais interessantes dessa tese é justamente a possibilidade de capturar o crescimento estrutural da IA por uma via diferente e, para muitos perfis, complementar, à exposição direta em empresas de tecnologia.
- ✓
Geradoras e utilities: empresas de geração e distribuição de energia com contratos de fornecimento para grandes consumidores industriais e data centers.
- ✓
Cadeia de equipamentos elétricos: fabricantes de transformadores, turbinas, cabos e componentes de rede, beneficiados pelo gargalo de capacidade produtiva do setor.
- ✓
Mineração e commodities: exposição a cobre e urânio como insumos estruturais da transição energética e da retomada nuclear.
- ✓
Infraestrutura e fundos especializados: veículos de investimento voltados a projetos de infraestrutura energética, com exposição diversificada a múltiplos projetos e geografias.
A vantagem estratégica dessa abordagem é a diversificação: em vez de concentrar todo o patrimônio nas mesmas poucas empresas de tecnologia que já dominam os índices acionários globais, o investidor pode obter exposição à mesma tendência estrutural por meio de setores com dinâmicas de preço, risco e ciclo diferentes o que pode contribuir para uma carteira mais equilibrada.
Como em qualquer tese de investimento, o ponto de partida não deveria ser “quais ativos comprar”, e sim “como essa tendência se encaixa dentro do meu perfil de risco, horizonte de tempo e alocação já existente”. Megatendências corretas na narrativa também podem gerar decisões equivocadas quando aplicadas sem planejamento e critério.
A sua carteira global está preparada para o gargalo estrutural da IA?
Enquanto o mercado foca apenas nas Big Techs, os gargalos físicos de transmissão de energia e fornecimento de infraestrutura pesada alteram as matrizes de risco mundiais. Desenvolva uma alocação patrimonial diversificada e resiliente com o gerenciamento da Kaza Capital.
FALAR COM UM ESPECIALISTA KAZA
Atendimento consultivo · Sem exigência de valor mínimo de investimento
A Kaza Capital é um escritório de assessoria de investimentos vinculado ao BTG Pactual. Desenvolvemos estratégias de gestão de liquidez, estruturação institucional em Renda Fixa global e preservação patrimonial intergeracional.
Fonte: International Energy Agency (IEA) / Editorial Kaza Capital | Julho 2026