A BTG Pactual Asset Management e a China Southern Asset Management assinaram um memorando de entendimento para desenvolver ETFs que conectem os mercados de capitais dos dois países. A ideia é simples de explicar, mas relevante em suas implicações: brasileiros poderão acessar ações chinesas pela B3, enquanto investidores chineses ganharão uma nova porta de entrada para empresas brasileiras por meio de suas próprias bolsas.
O acordo não cria apenas mais um ETF. Ele tenta reduzir a distância operacional entre dois dos maiores mercados emergentes do mundo.
Na China, o veículo previsto deverá investir no BZEQ11, ETF do BTG que acompanha o MSCI Brazil 25/50. No Brasil, a proposta é criar um ETF negociado na B3 que invista em um fundo de índice administrado pela China Southern.
Em vez de obrigar cada investidor a montar sozinho acesso operacional a uma bolsa estrangeira, a exposição internacional passa a ser empacotada dentro de um produto local. É uma ponte financeira, não uma eliminação dos riscos de investir no exterior.
Como a estrutura deve funcionar
O que exatamente foi assinado
As duas gestoras assinaram um memorando de entendimento, ou MOU, para desenvolver conjuntamente ETFs de acesso recíproco entre Brasil e China. O anúncio é importante, mas ainda não equivale ao lançamento definitivo dos fundos.
O memorando formaliza a intenção e o desenho da parceria. Etapas regulatórias, documentação, definição final dos veículos, custos e cronograma ainda precisam ser concluídos.
O investidor brasileiro poderá comprar China sem operar diretamente na China
A proposta é que o investidor compre e venda o ETF na própria B3, em reais, enquanto o fundo brasileiro mantém exposição a um ETF da China Southern listado no mercado chinês.
Isso reduz fricção operacional: não exige que o investidor individual construa sozinho uma estrutura de acesso, custódia e negociação em uma bolsa estrangeira. Mas o risco econômico continua sendo internacional.
Na outra direção, a China ganha um novo canal para comprar Brasil
Do lado chinês, o projeto prevê um ETF listado em Xangai ou Shenzhen, negociado em renminbi, que deverá investir no BZEQ11, ETF administrado pelo BTG Pactual Asset.
O BZEQ11 foi iniciado em 27 de julho de 2026 e replica o MSCI Brazil 25/50, benchmark de ações brasileiras de grande e média capitalização que cobre aproximadamente 85% da capitalização de mercado ajustada pelo free float no Brasil.
Em 30 de setembro, o índice tinha 45 componentes e capitalização agregada próxima de US$ 502 bilhões. A metodologia também controla concentração: nenhum emissor pode ultrapassar 25%, e a soma dos emissores com peso acima de 5% não pode superar 50%.
Por que a China Southern é uma parceira relevante
A China Southern Asset Management possuía aproximadamente US$ 402 bilhões sob gestão em dezembro de 2025, uma plataforma de investimentos em índices com 132 fundos, 68 ETFs, e distribuição que alcança cerca de 225 milhões de clientes, segundo os dados divulgados no acordo.
Além da escala, a gestora já possui experiência em estruturas de ETFs que dão acesso a outros mercados, como Japão, Singapura e Arábia Saudita. Essa experiência é relevante porque produtos cross-border exigem domínio de criação e resgate de cotas, liquidez, market making, tracking error e mercados que funcionam em fusos distintos.
O acordo chega no meio de uma transformação do mercado chinês de ETFs
Em 2024, os fundos de ações passivos superaram, pela primeira vez, os fundos ativos em patrimônio na China. A Bolsa de Xangai informou que os fundos de índices de ações domésticos chegaram a RMB 3,96 trilhões ao fim de 2024, acima dos RMB 3,44 trilhões da gestão ativa.
A indústria continuou crescendo: em abril de 2025, o mercado doméstico de ETFs ultrapassou RMB 4 trilhões. No comunicado da parceria, o BTG situa o mercado chinês de ETFs em aproximadamente RMB 6 trilhões, ou US$ 850 bilhões, em 2024, considerando a definição utilizada pela instituição.
Ou seja: a parceria conecta a B3 a uma indústria de investimento passivo que ganhou escala rapidamente em um dos maiores mercados de capitais do mundo.
Brasil e China já tinham ETF Connect, então o que há de novo?
A parceria BTG–China Southern não inaugura a conexão entre ETFs dos dois países. O caminho institucional começou antes.
Em 2024, CVM e CSRC aprofundaram a cooperação. Em março de 2025, B3, Shanghai Stock Exchange e Shenzhen Stock Exchange avançaram no ETF Connect. Em maio daquele ano chegaram à B3 os primeiros produtos: PKIN11, ligado ao CSI 300, e TECX11, ligado ao ChiNext; depois veio também o SILK11.
O acordo do BTG amplia esse ecossistema: adiciona duas gestoras de grande escala a uma infraestrutura regulatória e operacional que já saiu do papel.
O que o investidor brasileiro pode ganhar com isso
O benefício potencial é ampliar a diversificação internacional. O BTG cita como áreas de interesse no mercado chinês manufatura avançada, tecnologia, inteligência artificial, semicondutores e transição energética.
Mas o índice final ainda não foi divulgado. Portanto, esses setores representam o universo de oportunidades destacado pelas instituições, não a carteira já definida do futuro ETF.
A tese mais robusta é a diversificação: Brasil e China possuem composição setorial, moedas, ciclos econômicos e motores de lucro distintos. Combinar fontes de retorno diferentes pode reduzir dependência de um único mercado, desde que a alocação seja coerente com o perfil do investidor.
O que a China pode ganhar ao comprar Brasil
O investidor chinês poderá acessar uma carteira brasileira por meio de um veículo negociado localmente em renminbi, enquanto o fundo investe no BZEQ11.
Isso pode aumentar a visibilidade das empresas brasileiras diante de uma nova base de investidores e criar um canal adicional de capital estrangeiro. Mas é essencial não exagerar: existir um ETF não garante fluxo relevante.
Por que o BZEQ11 é uma porta de entrada interessante
O BZEQ11 utiliza um benchmark reconhecido internacionalmente. Isso facilita comparar a exposição ao Brasil com outras alocações globais e reduz uma parte da concentração que apareceria em um índice sem limites por emissor.
Segundo o BTG, o fundo cobra taxa de administração de 0,25% ao ano. A escolha do MSCI Brazil 25/50 também torna a exposição mais familiar a investidores institucionais acostumados à metodologia MSCI.
ETF local facilita acesso, mas não torna China um investimento simples
| Risco | O que significa | O que observar |
|---|---|---|
| Mercado | Ações chinesas podem ter ciclos longos de volatilidade. | Valuation, lucros e atividade. |
| Regulatório | Mudanças de regras podem afetar setores inteiros. | Política setorial e supervisão. |
| Câmbio | Retorno em reais pode diferir do retorno local. | Política de hedge quando divulgada. |
| Tracking | O fundo pode não reproduzir exatamente o ETF-alvo. | Custos e tracking error. |
| Liquidez | Produto novo pode ter spreads maiores. | Volume e formador de mercado. |
Há ainda a diferença de fuso. A B3 pode estar aberta enquanto o mercado chinês está fechado. Nessas horas, o formador de mercado precisa precificar a cota usando referências alternativas, o que pode aumentar spreads e desvios temporários.
O ganho mais importante pode ser a internacionalização da carteira brasileira
Muitos investidores brasileiros concentram patrimônio no mesmo país em que trabalham, recebem renda, possuem imóveis e pagam impostos. Esse comportamento, conhecido como home bias, faz com que vários riscos domésticos atinjam diferentes partes do patrimônio ao mesmo tempo.
Produtos internacionais negociados localmente reduzem uma barreira prática para diversificar. O ponto mais interessante da parceria pode não ser simplesmente “apostar na China”, mas tornar mais natural pensar a carteira de maneira global.
China não substitui Estados Unidos, é outra fonte de risco e retorno
Investir na China não é trocar automaticamente S&P 500 por ações chinesas. São mercados com estruturas econômicas, moedas, setores e regimes regulatórios diferentes.
Uma carteira internacional pode combinar Estados Unidos, Europa, China e outros emergentes por razões distintas. Diversificação eficiente não é colecionar países; é combinar fontes de risco que não dependam exatamente dos mesmos acontecimentos.
O impacto potencial para o mercado brasileiro
Se o veículo chinês ganhar escala, novas aplicações podem levar à criação de cotas e posições no BZEQ11 e, indiretamente, aumentar demanda pelos ativos utilizados pelo fundo para replicar o MSCI Brazil 25/50.
Esse é um dos mecanismos pelos quais ETFs globais conectam fluxos internacionais a mercados locais. Mas o tamanho do impacto dependerá do patrimônio captado. Por enquanto, o sinal mais concreto é institucional: uma gestora chinesa de grande escala pretende distribuir exposição ao Brasil usando um ETF do BTG como veículo-alvo.
O acordo é menos sobre “comprar China” e mais sobre transformar mercados locais em peças de uma carteira global.
O ETF é uma tecnologia financeira. Seu valor está em reduzir a distância operacional entre o investidor e um mercado que antes exigia mais infraestrutura.
O que observar antes de investir no futuro ETF
Conclusão: a fronteira dos ETFs está deixando de ser nacional
A indústria de ETFs está comprimindo a distância entre mercados. O acordo entre BTG Pactual Asset e China Southern é mais uma etapa desse processo: um brasileiro poderá acessar China pela B3; um chinês poderá acessar Brasil em sua bolsa local; e duas gestoras cuidarão da ponte.
Isso não torna o investimento chinês automaticamente atraente nem transforma o BZEQ11 em destino garantido de grandes fluxos. Mas reduz barreiras operacionais e amplia o universo de investidores capazes de acessar cada mercado.
Para o investidor, a mudança mais profunda é de mentalidade: o mercado doméstico está se tornando apenas uma das prateleiras possíveis dentro da carteira.
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Fontes utilizadas
- BTG Pactual Asset Management: anúncio da parceria e informações oficiais do BZEQ11.
- Broadcast / Estadão: estrutura proposta da parceria e dados das gestoras.
- B3: regras do ETF Connect e histórico da conectividade Brasil–China.
- Shanghai Stock Exchange: evolução do mercado chinês de ETFs.
- MSCI: metodologia, cobertura e dados do MSCI Brazil 25/50.
- China Southern Asset Management: informações institucionais e experiência em fundos de índice.
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