Dossiê Kaza · Terras Raras
Elas estão em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, robôs, data centers, radares, sistemas militares e eletrônicos avançados. O mundo não depende apenas de encontrar terras raras: depende de conseguir separá-las, refiná-las e transformá-las em ímãs de alto desempenho. É nesse ponto que um mercado relativamente pequeno em toneladas se transforma em uma questão de trilhões de dólares, e coloca o Brasil no centro de uma disputa por capital, tecnologia e segurança de suprimento.
O valor estratégico das terras raras não está apenas debaixo da terra. Está na capacidade de transformar minério em materiais que a indústria consegue usar.
A China respondeu, em 2024, por cerca de 60% da mineração mundial das terras raras mais importantes para ímãs. Mas sua participação saltava para aproximadamente 91% no refino e 94% na fabricação de ímãs permanentes.
O Brasil, por outro lado, possui aproximadamente 23% das reservas mundiais conhecidas e uma das poucas operações de terras raras pesadas em escala fora da Ásia. A oportunidade existe. O desafio é não repetir a história de exportar matéria-prima e importar tecnologia de maior valor agregado.
Por que países tratam terras raras como ativo estratégico
Primeiro: “terra rara” não é uma terra, e elas nem são tão raras assim
O nome terras raras é usado para um conjunto de 17 elementos químicos: os 15 lantanídeos da tabela periódica, mais escândio e ítrio.
Entre eles estão lantânio, cério, praseodímio, neodímio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, érbio e outros elementos com propriedades ópticas, magnéticas e eletrônicas muito específicas.
O termo “rara” confunde. Muitos desses elementos não são particularmente escassos na crosta terrestre. O problema é que eles raramente aparecem concentrados em depósitos de fácil aproveitamento econômico e costumam ocorrer misturados entre si.
E é justamente essa semelhança química entre os elementos que torna a separação complexa.
Nem todas as terras raras têm o mesmo valor estratégico
Falar em “preço da terra rara” é quase tão impreciso quanto falar em “preço do metal”. Cada elemento tem oferta, demanda, aplicação e preço próprios.
Na disputa industrial atual, quatro elementos se destacam porque são fundamentais para ímãs permanentes de alto desempenho:
Neodímio · Nd
Base dos ímãs NdFeB, utilizados em motores elétricos e inúmeras aplicações de alta eficiência.
Praseodímio · Pr
É combinado ao neodímio em ligas e ímãs de alto desempenho.
Disprósio · Dy
Ajuda o ímã a preservar desempenho em temperaturas elevadas.
Térbio · Tb
Também melhora propriedades magnéticas e térmicas em aplicações exigentes.
A Agência Internacional de Energia trata justamente Nd, Pr, Dy e Tb como as principais “terras raras magnéticas”. São elas que aparecem no centro da cadeia de motores elétricos, turbinas eólicas, robótica, automação e sistemas de defesa.
Por que um ímã tornou esses elementos tão importantes
O coração econômico dessa história é o ímã permanente de neodímio-ferro-boro, conhecido como NdFeB.
Esses ímãs conseguem gerar campos magnéticos extremamente fortes com pouco volume e pouco peso. Isso permite construir motores menores, eficientes e com alta densidade de potência.
Para um veículo elétrico, significa transformar energia da bateria em movimento com alta eficiência. Para uma turbina eólica, significa converter rotação em eletricidade. Para um robô, permite atuadores precisos. Para um drone, reduz peso. Em equipamentos militares, radares, sistemas de controle e aeroespaciais, desempenho e miniaturização também são decisivos.
Esse é o motivo pelo qual o tamanho do mercado de terras raras, medido apenas em toneladas ou dólares do minério, subestima seu peso econômico.
Da mina ao motor: onde realmente está o valor da cadeia
Uma mina não produz um motor elétrico. Entre a geologia e o produto final existe uma longa cadeia industrial.
A China não construiu sua posição apenas abrindo minas. Construiu conhecimento químico, escala industrial, fornecedores, mão de obra, metalização, fabricação de ímãs e demanda doméstica para consumir esses materiais.
Em 2024, segundo a IEA, a China detinha cerca de 60% da mineração global das terras raras magnéticas, 91% do refino e aproximadamente 94% da fabricação de ímãs permanentes sinterizados.
É por isso que terras raras viraram questão de segurança nacional
Quando um único país controla uma parcela tão grande das etapas intermediárias de uma cadeia, uma interrupção pequena no começo pode parar indústrias muito maiores no final.
As restrições chinesas anunciadas em 2025 mostraram isso na prática. Quedas temporárias nas exportações de determinados elementos e ímãs fizeram fabricantes de automóveis fora da China reduzir utilização de fábricas e, em alguns casos, interromper produção.
A IEA estima que, num cenário extremo de implementação completa de controles de exportação, cerca de US$ 6,5 trilhões por ano de produção econômica a jusante fora da China poderiam ficar expostos. Só o setor automotivo responderia por mais de US$ 3 trilhões desse valor.
A nova disputa não é por “quem tem a mina”, mas por quem consegue construir uma cadeia fora da China
Estados Unidos, União Europeia, Japão, Austrália e outras economias vêm tentando diversificar a cadeia.
O gargalo, porém, é maior no meio e no fim do processo do que na mineração. A IEA calcula que, mesmo considerando projetos anunciados, a capacidade fora da China deverá continuar insuficiente para atender a demanda projetada de 2035: a mineração avança mais rapidamente que o refino, e a fabricação de ímãs é ainda mais limitada.
Isso cria uma conclusão importante para investidores: uma nova mina pode aumentar oferta de minério sem resolver a dependência industrial.
E cria outra consequência: países podem pagar um prêmio por material produzido fora da cadeia dominante simplesmente porque segurança de abastecimento passou a ter valor econômico.
Onde o Brasil entra: uma potência geológica que ainda precisa virar potência industrial
Segundo dados baseados no USGS e reproduzidos por instituições brasileiras, o Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, aproximadamente 23% do total mundial conhecido, a segunda maior posição global, atrás da China.
A dimensão é impressionante, mas reservas não são receita. Durante anos, a produção brasileira foi irrelevante diante do potencial geológico. O desafio sempre esteve em transformar recursos identificados em projetos econômicos, licenças, engenharia, capital, processamento e clientes.
Isso começou a mudar.
A vantagem brasileira: depósitos de argilas iônicas
Parte relevante dos projetos brasileiros recentes está ligada a depósitos de argilas de adsorção iônica.
Neles, o intemperismo de rochas enriquecidas em terras raras deixa determinados elementos adsorvidos à superfície de minerais argilosos. Em condições geológicas favoráveis, isso pode permitir extração mais simples do que certos depósitos de rocha dura, com menor necessidade de britagem e concentração mineral intensiva.
Não significa impacto ambiental zero. Lixiviação, uso de reagentes, água, recuperação de áreas, controle de efluentes e licenciamento continuam sendo críticos.
Mas esses depósitos ajudam a explicar por que Goiás e Minas Gerais passaram a atrair tanto capital internacional para terras raras.
Serra Verde: quando geologia brasileira vira ativo geopolítico
A operação mais importante para entender essa mudança está em Minaçu, Goiás.
A Serra Verde iniciou produção comercial em 2024 e produz um carbonato misto contendo neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. A empresa afirma ser a única produtora em grande escala fora da Ásia capaz de fornecer os quatro elementos magnéticos críticos a partir da mesma operação.
Em 2026, o projeto deixou de ser apenas uma história de mineração e se tornou explicitamente geopolítico.
Quando um governo estrangeiro ajuda a financiar uma mina e participa da estrutura de compra de sua produção por 15 anos, o minério deixou de ser apenas commodity. Virou infraestrutura estratégica.
Minas Gerais está tentando avançar para processamento, e isso vale mais que simplesmente extrair
Minas Gerais concentra alguns dos projetos mais relevantes da nova corrida.
Em maio, a Viridis inaugurou em Poços de Caldas um centro semi-industrial de pesquisa e processamento de argilas iônicas, com capacidade de 100 quilos de minério por hora e foco na produção de carbonato misto com Nd, Pr, Dy e Tb. A companhia prevê estudos de viabilidade em 2026 e produção comercial a partir de 2028, sujeito à execução do projeto.
Em setembro, Minas assinou protocolo para estudos de um centro de processamento de terras raras em Uberlândia ligado à St George e parceiros brasileiros, com investimento indicado de cerca de R$ 2 bilhões e expectativa de operação em 2030.
A St George também desenvolve o Projeto Araxá, que combina terras raras e nióbio e, segundo estimativa da própria empresa atualizada em agosto, contém 3,98 milhões de toneladas de óxidos totais de terras raras, incluindo 760 mil toneladas de NdPr.
Já o Projeto Caldeira, no sul de Minas, tornou-se ainda mais relevante depois que a Lynas Rare Earths, uma das principais produtoras de terras raras fora da China, anunciou em 1º de outubro acordo para adquirir 100% da Meteoric Resources, dona do projeto, em uma transação ainda sujeita às aprovações previstas.
Goiás quer chegar até o ímã, e é aqui que a estratégia brasileira será testada
O governo de Goiás vem defendendo que a cadeia não termine no carbonato exportado.
A estratégia apresentada pelo estado inclui atrair separação de óxidos, metalização, produção de ligas e, finalmente, fabricação de ímãs permanentes de NdFeB em território goiano.
Essa diferença parece técnica, mas é econômica.
| Etapa | O que o Brasil captura | Complexidade |
|---|---|---|
| Minério / argila | Renda mineral e atividade extrativa. | Menor valor agregado relativo. |
| Carbonato misto | Primeira transformação química. | Ainda contém elementos misturados. |
| Óxidos separados | Know-how químico e maior valor industrial. | Grande gargalo mundial. |
| Metais e ligas | Integração a cadeias tecnológicas. | Exige tecnologia e controle de qualidade. |
| Ímãs | Produto industrial crítico pronto para motores e equipamentos. | Etapa de altíssima especialização. |
O risco para o Brasil é repetir uma estrutura conhecida: possuir a matéria-prima, exportar um produto pouco processado e recomprar tecnologia de maior valor incorporada em máquinas, motores e equipamentos.
O Brasil está começando a criar uma política para terras raras
Em janeiro de 2026, o Ministério de Minas e Energia iniciou os estudos para uma Estratégia Nacional de Terras Raras, com o objetivo declarado de organizar diretrizes para mineração, inovação, indústria e transição energética.
Isso é relevante porque a economia de um projeto de terras raras depende de fatores que ultrapassam a mina: infraestrutura, financiamento de longo prazo, licenciamento, pesquisa, capacidade química, demanda contratada e previsibilidade regulatória.
Países concorrentes oferecem crédito público, garantias, contratos de compra, incentivos e capital porque estão comprando algo além de minério: estão comprando resiliência de cadeia.
Para o investidor, a primeira regra é: reserva geológica não é lucro
Setores de mineração em estágio inicial produzem manchetes impressionantes: bilhões de toneladas de recurso, teores elevados, grandes áreas licenciadas e “potencial de classe mundial”.
Nenhum desses números, sozinho, garante retorno ao acionista.
Um ótimo depósito pode ser um investimento ruim se o preço pago pela ação incorporar expectativas excessivas. E um projeto tecnicamente bom pode fracassar se não conseguir financiar a planta.
Como investir em terras raras a partir do Brasil
Até pouco tempo, um investidor brasileiro interessado nessa tese precisava acessar bolsas estrangeiras. Isso mudou em 2026.
Em junho, começou a ser negociado na B3 o RARA11, primeiro ETF local dedicado a terras raras e metais estratégicos. O fundo replica o VanEck Rare Earth and Strategic Metals ETF (REMX) e oferece exposição a empresas internacionais de mineração, refino, reciclagem e outros metais estratégicos.
Também existe na B3 o BDR de ETF EART39, ligado ao Global X Rare Earth & Critical Materials ETF, com exposição a companhias relacionadas a terras raras e a outros materiais críticos, como lítio, cobre, níquel, grafite, cobalto e manganês.
Para uma exposição mais específica a projetos brasileiros, o caminho tende a passar por bolsas estrangeiras. Empresas listadas na Austrália e no Canadá desenvolvem projetos em Goiás, Minas Gerais e Bahia.
| Exposição | Como acessar | Principal risco |
|---|---|---|
| ETF global | RARA11 / EART39 na B3. | Exposição ampla: outros países e metais entram na carteira. |
| Produtor estabelecido | Companhias estrangeiras integradas à cadeia. | Preço dos óxidos, China e execução industrial. |
| Desenvolvedores no Brasil | Ações em bolsas como ASX/TSX, dependendo da companhia. | Risco exploratório, licenciamento, CAPEX e diluição. |
| Projetos privados | Private equity, project finance e operações institucionais. | Baixa liquidez, prazo longo e risco operacional elevado. |
O que olhar antes de comprar uma empresa de terras raras
Nesse setor, o investidor precisa aprender a olhar além do tamanho do recurso.
Mix de elementos
Quanto da receita potencial vem de NdPr, Dy e Tb? Toneladas de cério não valem o mesmo que toneladas de disprósio.
Recuperação metalúrgica
Recurso no solo não gera caixa se o processo químico não recuperar o elemento com custo competitivo.
Offtake
Contrato de compra reduz risco comercial e pode destravar financiamento, desde que as condições sejam econômicas.
Caixa até produção
Compare capital disponível, CAPEX necessário e quantidade provável de futuras captações.
A tese tem um paradoxo: todo mundo quer diversificar da China, mas competir com a China pode reduzir preços
O argumento de demanda é atraente: veículos elétricos, automação, turbinas, IA, data centers e defesa utilizam tecnologias que dependem de ímãs.
A IEA projeta demanda total das quatro terras raras magnéticas subindo de aproximadamente 91 mil toneladas em 2024 para 123 mil toneladas em 2030 e 150 mil em 2040 no cenário de políticas atuais.
Mas uma tese de demanda crescente não garante retorno crescente para mineradoras.
Novos projetos aumentam oferta. A China pode ajustar produção. Tecnologias podem reduzir a quantidade de Dy e Tb por ímã. Fabricantes podem desenvolver motores que utilizam menos ou nenhum ímã permanente em determinadas aplicações.
Por isso, a melhor empresa não é necessariamente aquela com a maior reserva. É aquela capaz de sobreviver a preços mais baixos e ainda gerar retorno sobre o capital.
A oportunidade brasileira não é virar a nova China da mineração. É evitar ser apenas uma mina da cadeia chinesa, ou americana.
O Brasil possui geologia, energia relativamente limpa, experiência mineral e projetos que já atraem capital de Estados Unidos, Austrália, Canadá e outros mercados. Mas possuir minério não é o mesmo que possuir a cadeia.
O que acompanhar no Brasil nos próximos anos
Conclusão: o Brasil já tem a geologia. A disputa agora é por tecnologia e capital
Terras raras ganharam um nome maior do que seu mercado porque sustentam produtos muito maiores do que elas.
Sem neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, diversas tecnologias poderiam ficar mais caras, maiores, menos eficientes ou dependentes de soluções alternativas. Por isso, o controle da cadeia deixou de ser apenas questão de competitividade industrial e passou a integrar estratégias de segurança econômica e nacional.
O Brasil tem uma posição rara: enorme base geológica, depósitos de argilas iônicas, operação comercial em Goiás e uma fila crescente de projetos em Minas Gerais, Bahia e outros estados.
Mas o ativo mais valioso que o país pode construir não está no subsolo. Está acima dele: conhecimento químico, refino, metalização, ligas, ímãs, propriedade intelectual e indústria.
Para o investidor, a mesma lógica se aplica. O maior depósito nem sempre será o melhor ativo. O vencedor será quem conseguir transformar recurso geológico em produção competitiva, contratos, caixa e retorno sobre capital.
Minerais críticos fazem sentido na sua carteira?
Terras raras combinam crescimento estrutural, geopolítica e riscos elevados de mineração. A Kaza pode ajudar a avaliar ETFs, exposição internacional e ativos ligados a minerais críticos dentro de uma estratégia patrimonial diversificada.
Fontes utilizadas
- International Energy Agency (IEA): Rare Earth Elements e Global Critical Minerals Outlook 2026, cadeia global, concentração, demanda e riscos de fornecimento.
- USGS / instituições federais brasileiras: reservas globais e posição do Brasil.
- Ministério de Minas e Energia: Estratégia Nacional de Terras Raras, aplicações e panorama da cadeia brasileira.
- Serra Verde: produção em Goiás, financiamento da DFC, contrato de fornecimento e metas operacionais.
- Governo de Minas / Invest Minas: projetos de processamento da Viridis e St George.
- Meteoric Resources / Lynas: Projeto Caldeira e acordo de aquisição anunciado em outubro de 2026.
- B3 / Investo / Global X: RARA11 e EART39 como veículos de exposição listados no mercado brasileiro.