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O Brasil Está Olhando Para o Segundo Turno, Mas o Mercado Deveria Olhar Para o Pacífico — El Niño

Por Alexsander Santos
Macro & InvestimentosDossiê Kaza · El Niño
Outubro de 2026

Enquanto o debate público se concentra em quem comandará o Brasil nos próximos quatro anos, um fenômeno a milhares de quilômetros daqui já está alterando o cenário de 2027. Um El Niño potencialmente excepcional pode afetar a produtividade agrícola, os preços dos alimentos, a renda real das famílias, a política monetária e a precificação de praticamente todas as classes de ativos.

O desafio não será apenas quem venceu a eleição. Será como o Brasil atravessará 2027 se clima, inflação e juros voltarem a apontar na direção errada ao mesmo tempo.

O mecanismo parece distante, mas é profundamente financeiro: chuva demais ou de menos reduz produtividade em determinadas culturas; menor oferta pode elevar preços; comida mais cara corrói renda real; inflação mais resistente dificulta cortes de juros; juros mais altos por mais tempo alteram renda fixa, bolsa, crédito, câmbio, consumo e custo de capital das empresas.

E esse encadeamento não é apenas uma hipótese de mercado. Em setembro, o próprio Banco Central dedicou um estudo específico aos efeitos do El Niño sobre as principais lavouras brasileiras e classificou o fenômeno como risco negativo para a produtividade agrícola de 2027.

A cadeia que o investidor precisa acompanhar

1 · Clima
El Niño forte
chuva e temperatura saem do padrão regional
2 · Oferta
Produtividade muda
milho, arroz e algodão estão entre os pontos de atenção
3 · Preços
Alimentos pressionam o IPCA
o impacto depende da cultura, região e oferta global
4 · Mercado
Juros e ativos são reprecificados
Selic, curva DI, bolsa, dólar e crédito entram na equação
>90%chance de El Niño muito forte no fim de 2026 e início de 2027, segundo a NOAA.
75%chance de um evento excepcional em outubro–dezembro de 2026 no cenário da NOAA.
~100%probabilidade indicada pela OMM de persistência até fevereiro de 2027.

Antes da economia: o que exatamente é o El Niño?

El Niño é a fase quente do fenômeno conhecido como El Niño–Oscilação Sul, ou ENOS. Ele acontece quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial central e oriental ficam persistentemente mais quentes do que o normal e essa mudança passa a interagir com a atmosfera.

Em condições normais, os ventos alísios empurram águas superficiais quentes em direção ao oeste do Pacífico, permitindo que águas mais frias subam perto da costa sul-americana. Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem ou mudam de padrão. A água quente se espalha para leste, altera a convecção tropical e reorganiza grandes circulações atmosféricas.

No Brasil, o INMET resume o padrão mais frequente assim: maior risco de seca em partes do Norte e Nordeste e de grandes volumes de chuva no Sul, além de temperaturas elevadas em diversas áreas. O efeito final, porém, depende também do Atlântico, de outros padrões oceânicos e da época do ano.

Por que este El Niño merece mais atenção?

No boletim oficial de setembro, a NOAA afirmou que o El Niño estava se fortalecendo, com mais de 90% de chance de atingir intensidade muito forte durante o fim de 2026 e o começo de 2027. Para outubro–dezembro, a agência atribuiu 75% de chance de um evento excepcional em sua série histórica.

A Organização Meteorológica Mundial foi igualmente enfática: seus centros globais apontam probabilidade próxima de 100% de persistência até fevereiro de 2027, com efeitos climáticos podendo continuar ao longo do ano.

Força não significa destino. Um El Niño muito forte aumenta a chance de impactos típicos, mas não garante que cada cultura ou região repetirá exatamente o comportamento de eventos passados.

O primeiro impacto é no campo, e ele é desigual

A leitura simplista “El Niño = seca = safra menor” é errada. Excesso de água pode ser tão destrutivo quanto falta de água: atrasa plantio, dificulta entrada de máquinas, aumenta doenças fúngicas, piora qualidade e atrapalha colheita.

O Banco Central analisou eventos entre 1990 e 2026 e encontrou efeitos adversos mais disseminados sobre milho, algodão e arroz. Na soja, o efeito é mais regional: há associação com ganhos no Sul e perdas em áreas do Matopiba, o que tende a compensar parte do choque no agregado nacional.

Cultura Risco O que isso pode tocar
Milho Risco negativo, principalmente na segunda safra. Ração, proteína animal, etanol de milho e custos de alimentos.
Arroz Excesso de chuva no Sul pode prejudicar plantio e produtividade. Impacto direto no orçamento alimentar das famílias.
Soja Efeito regional e heterogêneo. Exportação, esmagamento, farelo e óleo; geografia do produtor importa.
Café Embrapa vê janela crítica entre fim de 2026 e início de 2027 no Sudeste. Produtividade, qualidade do grão, exportação e indústria consumidora.

A Conab, ao mesmo tempo, projeta uma safra de grãos de até 366,6 milhões de toneladas em 2026/27, potencial recorde. Isso mostra a nuance: o Brasil pode produzir muito e ainda ter choques relevantes em culturas, regiões e preços específicos.

Do campo para o supermercado: como nasce a inflação

Menor produtividade não significa aumento automático no mesmo percentual para o consumidor. Entre a lavoura e o IPCA existem estoques, importações, câmbio, processamento, logística e poder de repasse.

Mas o histórico mostra que clima pode importar. Em estudo do Banco Central, o forte El Niño de 2015/16 teve contribuição relevante para a inflação de alimentos. No episódio atual, analistas consultados pelo BC já vinham incorporando efeitos do fenômeno às projeções.

A mediana citada no Relatório de Política Monetária de setembro estimava cerca de 0,2 ponto percentual de impacto sobre a inflação de 2026 e 0,3 ponto em 2027. O próprio BC ressalta que há elevada incerteza e que o resultado deve ser tratado como risco, não previsão fechada.

A transição financeira
O problema não é um alimento subir. É quando o choque de alimentos começa a mudar expectativas de inflação e o caminho esperado dos juros.

Comida mais cara reduz salário real, e muda o consumo

Salários não são reajustados instantaneamente quando alimentos sobem. Se o custo da cesta avança mais rápido que a renda nominal, o consumidor perde poder de compra real.

O efeito começa nas famílias em que alimentação ocupa maior parcela do orçamento, mas se espalha para empresas: sobra menos para roupas, eletrônicos, restaurantes, viagens, móveis e outros itens discricionários.

Alimentos sobem: a cesta básica ocupa mais renda.
Renda real cai: o consumidor compra menos mesmo com salário nominal igual.
Varejo discricionário sente: consumo é redirecionado para itens essenciais.
Crédito fica mais sensível: orçamento apertado aumenta risco de inadimplência.

É aqui que o El Niño encontra a Selic

Em setembro, o Copom reduziu a Selic para 13,75%, mas reforçou cautela. O Banco Central já coloca efeitos climáticos sobre produtividade agrícola e energia entre os riscos de alta para a inflação.

Um banco central não precisa reagir mecanicamente a toda alta de alimento. Choques de oferta podem ser temporários. O problema começa quando contaminam expectativas, salários, serviços e outros preços mais persistentes.

Se o mercado concluir que 2027 terá inflação mais difícil, a curva futura pode abrir antes de qualquer nova decisão do Copom. Isso reduz preço de títulos prefixados existentes, aumenta a taxa de desconto usada em ações e imóveis e encarece crédito.

Renda fixa: o El Niño pode mudar a velocidade do ciclo de juros

Classe Possível leitura Risco
CDI / pós Juros altos por mais tempo preservam carrego. Excesso de concentração no curto prazo.
Prefixados Curva abrindo derruba preço, mas cria taxas de entrada maiores. Duration e marcação a mercado.
IPCA+ Protege poder de compra no vencimento. Pode cair no curto prazo se juros reais subirem.
Crédito privado Spreads podem refletir risco maior de setores expostos. Qualidade do emissor e concentração.

A conclusão não é “comprar inflação” nem “ficar no CDI”. É entender que um choque climático altera a distribuição de cenários e torna prazo, indexador e liquidez ainda mais importantes.

Bolsa: não existe uma ação chamada “El Niño”

Uma commodity pode subir porque a oferta caiu, e a empresa produtora pode ganhar ou perder. Se o preço sobe 20%, mas o volume colhido cai 30% e os custos aumentam, a conta não é positiva automaticamente.

Agro

Cultura, região, irrigação, hedge e seguro importam mais que o rótulo “agronegócio”.

Consumo

Renda real menor pode afetar varejo, serviços e bens discricionários.

Bancos

Juros altos podem ajudar margens e ao mesmo tempo piorar crédito.

FIIs e ativos longos

Curva de juros mais alta pressiona valuations mesmo com receitas indexadas.

Dólar: o choque pode atuar nos dois lados

Uma safra menor pode reduzir volumes exportados e diminuir entrada de dólares. Mas se a oferta global cair, os preços internacionais podem subir e compensar parte da perda de volume. A direção final depende do produto e do que acontece nos demais países produtores.

Se o real enfraquecer, o choque ganha um segundo canal: fertilizantes, combustíveis, alimentos importados e outros insumos ficam mais caros em reais, reforçando a inflação.

Crédito rural, Fiagros e seguros: 2027 será um teste de qualidade

Para quem investe em CRAs, Fiagros, fundos de crédito ou dívida de empresas agrícolas, a análise precisa descer ao nível do devedor. Uma quebra localizada pode aumentar renegociações, acionamento de seguros e necessidade de capital de giro.

“Agro” não é uma classe homogênea. Dois emissores podem ter riscos completamente diferentes por cultura, localização, irrigação, hedge, seguro e estrutura de garantias.

Energia: outro canal possível, mas sem regra automática

O Brasil depende fortemente de hidrelétricas, mas mais chuva no Sul não significa necessariamente melhor hidrologia em todo o sistema. Reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste, calor, demanda, disponibilidade térmica e transmissão entre regiões importam.

Por isso, o BC inclui custos de energia entre os possíveis efeitos inflacionários de choques climáticos. Para utilities e empresas eletrointensivas, acompanhar hidrologia é tão relevante quanto acompanhar o Pacífico.

O choque global também conta

O Banco Mundial informou que, entre junho e meados de setembro de 2026, cereais subiram 18%, milho 26% e trigo 22% nos mercados internacionais. A instituição cita um El Niño forte entre os riscos capazes de elevar preços acima das projeções atuais.

Isso significa que o Brasil pode sofrer impactos mesmo quando a produção doméstica de determinada cultura seja razoável: oferta menor em outros países altera preços globais, exportações e custos de importação.

O próximo governo não controlará o El Niño, mas será julgado pela resposta

É aqui que o gancho eleitoral volta sem precisar falar de candidato algum. Nenhum presidente controla a temperatura do Pacífico. Mas o governo que assumir 2027 influenciará como o choque é absorvido.

Política fiscal, seguro rural, crédito, logística, tarifas de importação, estoques, energia e a relação com a política monetária podem reduzir ou amplificar o efeito econômico.

Fiscal: aliviar preços via subsídios pode ajudar no curto prazo e criar custo orçamentário.
Agro: seguro, crédito, ZARC e infraestrutura ajudam a reduzir perdas.
Monetária: o BC precisará distinguir choque temporário de inflação persistente.
Regulatória: intervenções mal calibradas em preços ou comércio podem criar efeitos de segunda ordem.

O investidor não precisa prever o clima. Precisa construir uma carteira capaz de sobreviver a ele.

O erro seria transformar a previsão de El Niño em uma ordem de compra ou venda. A informação útil é reconhecer que 2027 pode trazer um choque de oferta justamente quando inflação e juros ainda exigem atenção.

Renda fixa: prazo, indexador e duration importam mais quando a inflação fica incerta.
Bolsa: geografia, poder de repasse e estrutura de custos podem separar vencedores e perdedores dentro do mesmo setor.
Câmbio: exposição internacional pode diversificar um choque doméstico, mas dólar também tem risco próprio.
Crédito: spread maior só compensa se remunerar adequadamente clima, liquidez, garantias e risco de inadimplência.
Política: para o patrimônio, importa menos adivinhar o vencedor e mais entender como a próxima gestão reagirá ao choque se ele se materializar.

Três cenários para 2027

Cenário Macro Mercados
Impacto moderado Safra agregada forte; alimentos sobem pouco; expectativas ficam ancoradas. Ciclo de juros pode continuar; ativos longos ganham espaço gradualmente.
Choque concentrado Algumas culturas e regiões sofrem; IPCA de alimentos piora sem contaminação ampla. Mais volatilidade na curva; seleção setorial e de crédito pesa mais.
Choque persistente Alimentos, câmbio e energia pressionam expectativas; renda real desacelera. Pós-fixados preservam carrego; duration e consumo sofrem; proteção inflacionária ganha relevância.

2027 pode começar com um problema que não cabe numa urna

Em outubro, o Brasil decide quem governará o país. Mas as urnas não decidirão o preço do milho, o regime de chuvas no Sul, a temperatura do Pacífico ou a intensidade das secas no Norte e Nordeste.

O El Niño de 2026/27 já está formado e as principais agências meteorológicas enxergam um evento muito forte. O Banco Central já colocou o fenômeno no mapa de riscos para produtividade e inflação. Ministério da Agricultura e Embrapa já trabalham com medidas de mitigação.

Para o investidor, essa é a mensagem: o resultado da eleição é um evento. O ambiente econômico que vem depois é um processo.

A eleição escolhe o próximo governo. O clima pode definir parte do cenário econômico que ele encontrará.
Kaza Capital | BTG Pactual

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Fontes utilizadas

  • NOAA / Climate Prediction Center: ENSO Diagnostic Discussion e probabilidades oficiais de setembro de 2026.
  • Organização Meteorológica Mundial: El Niño/La Niña Update e Global Seasonal Climate Update de setembro de 2026.
  • INMET, MAPA e Embrapa: impactos regionais e orientações para a safra 2026/27.
  • Banco Central do Brasil: Relatório de Política Monetária de setembro de 2026 e estudos sobre clima, produtividade agrícola e inflação de alimentos.
  • Conab: Perspectivas para a Agropecuária 2026/27.
  • Banco Mundial: Food Security Update de setembro de 2026 e Commodity Markets Outlook.

Kaza Capital | BTG Pactual

Este artigo usa a eleição apenas como referência temporal para analisar riscos macroeconômicos de 2027. Não há avaliação de candidatos, partidos ou preferências eleitorais.

DISCLAIMER:Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. As projeções sobre El Niño e seus possíveis impactos econômicos são baseadas em cenários e probabilidades, podendo se materializar de forma diferente do esperado. Investimentos envolvem riscos e devem ser avaliados de acordo com o perfil, objetivos e horizonte de cada investidor. A menção ao processo eleitoral é exclusivamente contextual e não representa apoio ou oposição a candidatos ou partidos.

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