Setembro foi um mês de alta para a bolsa brasileira. O Ibovespa subiu 5,0% em reais e acumula 15,6% em 2026 — 22,5% quando medido em dólares, o segundo melhor desempenho da América Latina no ano. O motor foi, mais uma vez, o investidor estrangeiro, que aportou cerca de R$ 6,3 bilhões no mês. Mas o fôlego perdeu força na segunda quinzena, à medida que as pesquisas eleitorais se estabilizaram e a disputa presidencial voltou a ficar indefinida.
É nesse ambiente que o time de Research do BTG Pactual publicou a atualização mensal da sua carteira recomendada de ações. A decisão de outubro chama atenção justamente pelo que não fez: nenhuma troca. A carteira vai atravessar os dois turnos da eleição sem possibilidade de ajuste — e foi desenhada para isso. Neste artigo, explicamos a lógica de equilíbrio por trás dessa escolha.
Eleições · Juros longos · Câmbio
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Um mercado que reage às pesquisas
A leitura do BTG Pactual é que, neste momento, praticamente tudo na bolsa gira em torno da eleição. Entre 21 de agosto e 10 de setembro, período em que o candidato de oposição ganhou terreno nas pesquisas, os estrangeiros compraram R$ 12,5 bilhões em ações brasileiras. Quando as intenções de voto se estabilizaram e o atual presidente voltou a ampliar marginalmente sua vantagem, o fluxo esfriou e o índice devolveu parte dos ganhos.
O retrato mais amplo reforça a cautela. Agosto havia registrado a maior saída estrangeira de 2026, de cerca de R$ 19 bilhões. Nos fundos dedicados à América Latina, o peso do Brasil caiu 1,55 ponto percentual, para 56,2% — o menor nível desde dezembro de 2024 —, com os recursos migrando para Chile, Colômbia e México. No mercado local, os fundos de ações seguem com resgates: cerca de R$ 3 bilhões em setembro e R$ 14 bilhões no ano, ainda assim bem abaixo dos quase R$ 58 bilhões do mesmo período de 2025.
Uma disputa dentro da margem de erro
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, nenhum candidato se aproxima dos 50% dos votos válidos. Pela média agregada acompanhada pelo BTG Pactual, as simulações de segundo turno mostram diferença de apenas 0,15 ponto percentual entre os dois principais nomes. Para o mercado, isso significa um mês de volatilidade em que o resultado pode mover preços de forma relevante em qualquer direção.
Valuation: assimetria favorável, mas com cenário-base cauteloso
A bolsa brasileira negocia a 10,1 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, excluindo as duas maiores empresas de commodities do índice — 0,7 desvio-padrão abaixo da média histórica de 11,9 vezes. O BTG Pactual desenha dois caminhos a partir daí.
Em um cenário de vitória da oposição, o mercado tenderia a precificar medidas mais firmes de ajuste fiscal. Um retorno do P/L à média histórica implicaria potencial de valorização em torno de 20%; considerando apenas a média dos últimos 10 anos (11,1 vezes), o potencial seria de cerca de 11%. Se o múltiplo chegasse a um desvio-padrão acima da média, como já ocorreu em ciclos anteriores, o espaço poderia ficar entre 32% e 45%. O real também tenderia a se valorizar, algo próximo de 5%.
Já a reeleição do atual presidente, na visão do Research, poderia levar o Ibovespa de volta à região de 170 mil pontos — cerca de 10% abaixo do nível atual, com P/L próximo de 9 vezes — e o dólar para a faixa de R$ 5,70 a R$ 6,00. Em dólares, a correção poderia chegar a 20–25%. O próprio relatório pondera, porém, que uma queda dessa magnitude deixaria os valuations ainda mais descontados, o que tende a atrair de volta o capital estrangeiro e limitar o downside. Os analistas avaliam ainda que medidas recentes do governo deram impulso à campanha e aumentaram marginalmente as chances de reeleição.
O freio que vem de fora
Os juros reais de 10 anos nos EUA estão em 2,89%, alta de 0,99 ponto percentual em 2026. Isso limita o quanto os juros longos brasileiros podem cair, mesmo em um cenário doméstico positivo. O spread entre os juros reais de longo prazo do Brasil e dos EUA está em 4,5%, abaixo da média histórica de 5% — embora já tenha ficado abaixo de 4% em momentos de consolidação fiscal.
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Distribuição por setor
A carteira de outubro mantém dez ações distribuídas em oito setores. Por trás da divisão setorial, existe uma lógica de construção mais importante: cada bloco cumpre uma função diferente diante dos possíveis desfechos da eleição.
Serviços Básicos
30%
Energia elétrica, gás e saneamento: fluxos de caixa longos e contratados, sensíveis à queda dos juros longos.
Petróleo & Gás
15%
Maior peso individual: receita dolarizada, geração de caixa robusta e dividendos elevados.
Bancos
10%
Banco de referência em qualidade de ativos, com gestão de risco conservadora para um ciclo de crédito mais difícil.
Bens de Capital
10%
Exportadora de alto valor agregado, com carteira de pedidos em expansão e momento forte de resultados.
Metais e Mineração
10%
Siderúrgica com cerca de três quartos do resultado operacional gerado nos EUA: proteção cambial direta.
Transporte
10%
Concessões rodoviárias com contratos corrigidos pela inflação e pipeline relevante de novos investimentos.
Saúde
10%
Consolidadora hospitalar negociando perto das mínimas históricas de múltiplo, com resultados resilientes.
Imobiliário
5%
Construtora de baixa renda com dividendos robustos e múltiplo descontado.
A carteira em dois blocos
65% posicionados para juros mais baixos: serviços básicos, infraestrutura e saúde (50%), banco (10%) e construtora (5%) — o bloco que mais se beneficia de um cenário de consolidação fiscal.
35% posicionados como proteção: exportadoras ligadas ao câmbio (20%) e petróleo (15%) — o bloco que tende a amortecer as perdas se o real se desvalorizar.
O que mudou de setembro para outubro
Nada. As dez posições e seus pesos foram mantidos integralmente. A explicação está em uma regra da própria carteira: nenhuma alteração pode ser feita dentro do mês. Como outubro concentra os dois turnos da eleição, a composição definida agora precisa funcionar em qualquer resultado.
A tese central: juros longos e câmbio. Para o BTG Pactual, os juros de longo prazo e as ações já embutem uma dose considerável de risco fiscal, enquanto o real ainda não. Por isso, a carteira se apoia nas duas variáveis com maior potencial de retorno em cada direção. Se o ajuste fiscal vier, os juros longos caem e as empresas de fluxo de caixa longo se valorizam. Se o quadro fiscal piorar, o real tende a se depreciar com mais força — e as exportadoras e a petroleira capturam esse movimento.
A manutenção da construtora de baixa renda. Foi a decisão que exigiu mais convicção. A posição teve desempenho cerca de 15 pontos percentuais inferior ao índice em setembro, pressionada por um crédito mais restritivo no programa habitacional e por uma greve no principal banco financiador do segmento. O Research entende que a queda foi exagerada frente à revisão de resultados, que o fim da greve reduz o risco do setor e que a posição funciona como proteção caso o atual governo permaneça.
Defensivas com assimetria. Mesmo nos setores mais estáveis, a escolha privilegiou empresas com balanço sólido e menor dependência de um único cenário: uma geradora de energia com grande volume disponível para venda em um ambiente de preços mais altos, uma concessionária de saneamento em fase de crescimento contratado após a privatização e uma operadora hospitalar cujo momento de resultados segue forte apesar da compressão de múltiplos.
Desempenho e o que observar em cada cenário
A estratégia de equilíbrio vem entregando resultado. Em setembro, a carteira subiu 6,6%, acima do Ibovespa (5,0%) e do IBrX-50 (5,1%). No acumulado de 2026, a alta é de 16,1%, frente a 15,6% do Ibovespa, 16,9% do IBrX-50 e 10,5% do CDI.
O relatório também mapeia quais perfis de empresa tendem a se destacar em cada desfecho. Em um cenário de vitória da oposição, os mais beneficiados seriam varejo, construtoras de média e alta renda, empresas ligadas ao mercado de capitais e companhias mais alavancadas. Em um cenário de reeleição, a vantagem iria para exportadoras, construtoras de baixa renda, seguradoras, boas pagadoras de dividendos e empresas com baixo endividamento. A carteira atual se posiciona deliberadamente entre os dois grupos — e o BTG Pactual reconhece que, em um rally muito forte, ela pode ficar ligeiramente atrás do índice.
Números-chave do relatório
Carteira em setembro: +6,6% (Ibovespa: +5,0%)
Carteira em 2026: +16,1% (Ibovespa: +15,6% | CDI: +10,5%)
P/L 12 meses do Ibovespa ex-maiores commodities: 10,1x (média histórica: 11,9x)
Fluxo estrangeiro em setembro: +R$ 6,3 bilhões
Primeiro turno: 4 de outubro
Leitura estratégica
Diante de um evento binário, a tentação é apostar no resultado. A carteira de outubro mostra outro caminho: em vez de tentar prever quem vence, ela identifica quais variáveis vão se mover em cada desfecho e distribui o risco entre elas. É a diferença entre ter uma opinião sobre a eleição e ter uma estratégia para ela.
Há também uma lição sobre disciplina. Manter uma posição que caiu 15% no mês anterior, quando a tese segue de pé, exige separar o ruído de preço da mudança de fundamento. E aceitar render um pouco menos em um cenário de euforia, em troca de cair menos em um cenário adverso, é uma escolha consciente de quem pensa em consistência ao longo do tempo — não em acertar um único mês.
Para quem investe com horizonte longo, a pergunta mais útil para as próximas semanas talvez não seja quem vai ganhar, mas se a sua carteira está preparada para os dois resultados. A composição completa da carteira do BTG Pactual, com as dez ações e seus pesos, está disponível para clientes via Kaza Capital.
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Fonte: BTG Pactual Equity Research — Carteira Recomendada de Ações (10SIM), Outubro de 2026, publicada em 01/10/2026. Dados: Economatica, Bloomberg, B3, EPFR, Anbima, BTG/Nexus e estimativas do BTG Pactual.
Este conteúdo foi elaborado pela Kaza Capital com base no relatório público do BTG Pactual e tem caráter exclusivamente informativo e educativo. Não constitui oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. As opiniões e projeções aqui mencionadas são do time de Research do BTG Pactual e podem mudar sem aviso prévio. Rentabilidade passada não representa garantia de resultados futuros. Investimentos envolvem riscos, incluindo possibilidade de perda do capital investido. Antes de tomar qualquer decisão de investimento, consulte um assessor credenciado.
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