Setembro foi um mês positivo para a bolsa brasileira e, desta vez, as empresas de menor capitalização acompanharam o movimento: o índice de small caps (SMLL) avançou 5,2%, ligeiramente acima dos 5,0% do Ibovespa. O dado, porém, não muda o quadro do ano. No acumulado de 2026, o SMLL ainda recua 1,6%, enquanto o Ibovespa sobe 15,6% e o CDI rende 10,5%. A recuperação da bolsa, até aqui, foi um movimento de grandes empresas.
É nesse contexto que o time de Research do BTG Pactual publicou, em 1º de outubro, a atualização mensal da sua carteira de Small Caps. Foram duas trocas entre as dez posições, uma delas com mudança de setor, e a manutenção deliberada dos papéis que mais sofreram em setembro. Este artigo explica a lógica por trás desses movimentos.
Valuation · Juros · Eleições
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Cenário do mês: o índice subiu, a carteira não acompanhou
Segundo o relatório do BTG Pactual, a carteira de Small Caps recuou 0,3% em setembro, contra alta de 5,2% do SMLL. A decomposição do resultado ajuda a entender o porquê. Como as dez posições têm peso idêntico, de 10% cada, o impacto de cada papel é proporcional à sua variação no mês.
Seis das dez ações fecharam setembro no positivo, com destaque para a posição em tecnologia, que subiu 10,5%, e para a rede de farmácias, com alta de 7,0%. O resultado foi comprometido por duas quedas concentradas: a incorporadora voltada à habitação popular recuou 18,4% e a companhia de agronegócio com operação industrial, 11,4%. Sozinhas, as duas retiraram cerca de 3 pontos percentuais do desempenho mensal.
Os analistas associam a queda da incorporadora a uma postura mais restritiva na aprovação de crédito pela Caixa Econômica Federal, fator que consideram de curto prazo. No caso da empresa de agronegócio, o gatilho foram margens industriais mais fracas no segundo trimestre, tratadas no relatório como volatilidade típica do negócio, e não como deterioração estrutural. No ano, a carteira acumula queda de 7,8%, abaixo do próprio SMLL.
O descompasso de 2026
Até setembro, o Ibovespa acumula alta de 15,6%, o índice de small caps recua 1,6% e o CDI rende 10,5%. A distância de mais de 17 pontos percentuais entre os dois índices de ações mostra que a valorização da bolsa ainda não chegou às empresas menores, tradicionalmente as mais sensíveis ao nível dos juros.
Valuation: o que os números agregados mostram
O relatório não traz indicadores consolidados do SMLL, mas as estimativas do BTG Pactual para as dez empresas permitem uma leitura agregada. Pelos cálculos da Kaza Capital sobre esses dados, a mediana do preço/lucro (P/L) projetado da carteira é de 10,0 vezes para 2026, entre as nove companhias com estimativa disponível, e de 8,5 vezes para 2027. Seis das dez empresas negociam abaixo de 10 vezes o lucro estimado para 2027.
O P/L indica quantos anos de lucro o investidor paga pelo preço atual da ação. Múltiplos de um dígito, em companhias para as quais os analistas projetam crescimento de resultado, sugerem que o mercado embute um grau elevado de ceticismo nos preços. Essa é a tese central da seleção: nove das dez posições têm recomendação de compra na cobertura do BTG Pactual, e uma, neutra.
Vale o registro de longo prazo. Desde julho de 2010, início da gestão atual, a carteira acumula alta de 5.410,5%, ante 205,8% do Ibovespa e 99,5% do SMLL. O histórico mostra o alcance da seleção ativa nessa classe de ativo, mas convive com anos como 2026, em que a estratégia fica atrás do índice. Rentabilidade passada não representa garantia de resultado futuro.
Liquidez: o outro lado das small caps
A carteira seleciona empresas com valor de mercado de até cerca de R$ 15 bilhões. Entre as dez escolhidas para outubro, o porte vai de aproximadamente R$ 2 bilhões a pouco mais de R$ 15 bilhões, e metade delas movimenta menos de R$ 20 milhões por dia em bolsa. Menor liquidez significa oscilações mais amplas, para cima e para baixo, e faz parte do risco assumido nessa classe de ativo.
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Distribuição por setor
A carteira mantém dez ações com peso igual de 10%, distribuídas em sete setores na classificação do BTG Pactual. Três deles concentram 60% da alocação.
Agronegócio
20%
Duas posições: uma companhia integrada de insumos, grãos e indústria, e uma holding em processo de simplificação e venda de ativos.
Serviços Básicos
20%
Uma empresa de gestão de resíduos em expansão no biometano e uma companhia estadual de saneamento negociada com desconto.
Varejo
20%
Uma rede de academias com escala regional e uma rede de farmácias de perfil defensivo, com geração consistente de caixa.
Bancos
10%
Novo nome no setor: um banco médio que ganhou espaço no crédito consignado privado, com originação e spreads em melhora.
Imobiliário
10%
Uma incorporadora voltada à habitação popular, mantida na carteira após a forte queda de setembro.
Papel e Celulose
10%
Novo setor na carteira: uma fabricante de painéis de madeira e acabamentos em fase de reestruturação e redução de dívida.
Tecnologia (TMT)
10%
Uma empresa de pagamentos e serviços digitais que combina crescimento de dois dígitos, rentabilidade e retorno ao acionista. Foi o melhor desempenho da carteira em setembro.
O que mudou de setembro para outubro
Os estrategistas do BTG Pactual fizeram duas substituições. As outras oito posições permanecem, todas com o mesmo peso.
Bancos: sai o banco digital, entra um banco médio especializado. O setor manteve os 10% de participação, mas com outra tese. Deixa a carteira um banco digital, que recuou 3,0% em setembro. Entra um banco de médio porte que, segundo o BTG Pactual, tem sido o principal vencedor de sua cobertura no crédito consignado privado, uma linha recente na qual bancos tradicionais e digitais vêm encontrando dificuldade para ganhar tração. O relatório destaca que originação e spreads continuam melhorando, ao contrário do que se esperava inicialmente, e que o papel negocia a um dos múltiplos de lucro mais baixos do setor financeiro.
Sai Petróleo e Gás, entra Papel e Celulose. A segunda troca altera a composição setorial. Sai uma prestadora de serviços marítimos para a indústria de óleo e gás, que subiu 2,3% no mês, e com ela a carteira zera a exposição ao setor. Entra uma fabricante de painéis de madeira e de louças e metais sanitários, descrita pelos analistas como uma tese de reestruturação: a companhia ajustou capacidade produtiva, reduziu custos e vendeu ativos não essenciais, inclusive florestais. A alavancagem, que chegou a 3,5 vezes a dívida líquida sobre o EBITDA, está em 2,7 vezes e, na avaliação do BTG, deve continuar caindo.
O relatório não detalha os motivos das saídas. O que ele deixa claro é a lógica das entradas: nos dois casos, empresas com resultado operacional em melhora e preços que, na visão dos analistas, ainda não refletem essa evolução.
O que foi mantido, apesar da queda. Tão relevante quanto as trocas é o que não mudou. As duas posições que mais pesaram em setembro seguem na carteira. Sobre a incorporadora, os analistas afirmam não ter revisado de forma relevante as projeções de lucro e consideram a correção exagerada. Sobre a empresa de agronegócio, lembram que as margens industriais são voláteis por natureza e que investimentos recém-concluídos em esmagamento de soja, biodiesel e etanol de milho devem contribuir cada vez mais para volumes e resultados.
Juros, eleições e consumo: as variáveis no radar
Três temas atravessam as teses da carteira. O primeiro é a trajetória dos juros. Com o CDI acumulando 10,5% em nove meses, o custo do dinheiro segue elevado. A nova posição em painéis de madeira é a mais diretamente ligada a esse fator: a dívida é atrelada ao CDI e a demanda depende do varejo, o que, segundo o relatório, faz da empresa uma beneficiária de um ciclo de juros mais baixos.
O segundo é o calendário eleitoral, citado em duas frentes. No saneamento, a estatal estadual negocia, na leitura dos analistas, como se nenhuma melhora de gestão fosse ocorrer; uma eventual privatização ou uma administração voltada a corrigir ineficiências, a depender do próximo governo estadual, funcionaria como gatilho. Na habitação popular, a incorporadora é vista como alguma proteção para a carteira em um cenário de continuidade da atual agenda federal para o segmento.
O terceiro é o consumo. O relatório reconhece a preocupação crescente com a desaceleração e, por isso, privilegia no varejo o segmento farmacêutico, considerado um dos mais defensivos da cobertura. Há ainda um vetor estrutural: os medicamentos da classe GLP-1, cuja chegada de versões genéricas tende a ampliar o acesso e sustentar volumes maiores nos próximos anos.
Três variáveis, três exposições
Juros: empresa industrial com dívida atrelada ao CDI e receita ligada ao varejo.
Eleições: saneamento estadual, pela possibilidade de mudança de gestão, e habitação popular, pela agenda federal.
Consumo: varejo farmacêutico como posição defensiva, com crescimento adicional vindo dos medicamentos GLP-1.
Leitura estratégica
A atualização de outubro traz três lições que valem além deste mês. A primeira é sobre disciplina. Depois de um mês em que a carteira ficou mais de cinco pontos percentuais atrás do índice, a reação mais intuitiva seria vender o que caiu. O time do BTG Pactual fez o contrário: manteve as duas maiores quedas, e as saídas não foram os papéis de pior desempenho. A decisão parte de uma distinção que todo investidor precisa fazer: o preço caiu porque o negócio piorou, ou caiu sem que as projeções de resultado tenham mudado?
A segunda é sobre a natureza das teses. Boa parte da carteira não depende de a economia acelerar, e sim de eventos específicos de cada empresa: redução de dívida, venda de ativos, simplificação societária, maturação de investimentos já realizados. São gatilhos que estão mais sob controle das companhias do que do cenário macro, o que faz diferença em um ano de juros altos e eleição.
A terceira é sobre o que significa investir em small caps. A classe combina maior espaço para diferenciação com menor liquidez e oscilações mais amplas, e 2026 mostra que ela pode ficar para trás por períodos longos mesmo com a bolsa em alta. Preço descontado não é sinônimo de retorno imediato; exige horizonte compatível e convicção nos fundamentos. A composição completa, com as dez ações e a tese de cada uma, está disponível por meio da Kaza Capital.
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Fonte: BTG Pactual Equity Research, Carteira Recomendada de Ações – Small Caps, 1º de outubro de 2026. Dados: estimativas do BTG Pactual e Economatica. As medianas de P/L foram calculadas pela Kaza Capital a partir das estimativas do relatório.
Este conteúdo foi elaborado pela Kaza Capital com base no relatório público do BTG Pactual e tem caráter exclusivamente informativo e educativo. Não constitui oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. As opiniões e projeções aqui mencionadas são do time de Research do BTG Pactual e podem mudar sem aviso prévio. Rentabilidade passada não representa garantia de resultados futuros. Investimentos envolvem riscos, incluindo possibilidade de perda do capital investido. Antes de tomar qualquer decisão de investimento, consulte um assessor credenciado.
A Kaza Capital atua como escritório de assessoria de investimentos vinculado ao BTG Pactual.